Seria igual com os “olhos fechados”

29 de Junho de 2016

Não existe forma de imaginar uma seleção durante todo o tempo. Há algumas, porém, pelo estilo “colado na pele”, que imaginamos mais facilmente. A Espanha da posse e a Itália cínica do contra-ataque são hoje quase dogmas estilísticos. O mais fascinante é quando essa certeza sobre a tendência do jogo é alterada. Quando uma das equipas rouba ideias da outra e, sem perder o seu código genético, confunde as análises mais primárias. É o que está a fazer a Itália de Conte neste Euro. A exibição (controlo e vitória) frente à Espanha foi o exemplo perfeito disto.

Após o jogo com a Bélgica, citei-os como exemplo de intensidade, traduzindo esta numa palavra: concentração (para chegar primeiro na bola, espaços, passe, recuperação, divididas e pensamento no jogo).

Não ter um jogador para debater pelo excesso de criatividade que pode subverter a disciplina táctica coletiva (o que costuma ser um debate clássico das seleções italianas em Mundiais e Euros) deu maior margem para a Conte construir “á navalha” este onze na forma de jogar de cada um. Com De Sciglio a lateral-esquerdo, resolveu a única posição onde tinha um problema (e já tinha usado quatro jogadores) dando o balanço correto ás duas faixas do 3x5x2 (que vira 5x3x2 atrás da linha da bola).

Não acho é que seja uma equipa sem estrelas. Há jogadores que merecem destaque individual. É antes uma equipa sem individualidades egocêntricas. O ego é colectivo e está na táctica. Nesse contexto, roubaram o espaço e qualidade de posse à Espanha.

A rotação do trio do meio-campo (De Rossi-Giaccherini-Parolo) e os centrais (Barzagli-Bonucci-Chellini) jogariam com a mesma sincronização com uma “venda nos olhos”, mas se há jogador que me espanta é Éder. Nunca vira nele tanta qualidade, táctica e técnica. Não pensa nunca “em brasileiro”. Tudo nele é “italiano”. Até na forma como recua (é o “primeiro defesa”) e “come” a relva, bola e adversário. Depois, surge a desmarcar-se, peitudo (como os históricos nº9 italianos desde Boninsegna) a assaltar os defesa adversários.

Como um espelho de Conte (desde o fato, camisa e gravata escura à forma a como, na berma das quatro linhas, “joga” com os jogadores no banco) esta Itália é a história do futebol em movimento.

Como mexo na minha ideia?

A Islândia ganhou bem o jogo, mas para tal ser possível, nunca bastaria só o cumprimento físico-inteligente do seu plano. Ou seja, a queda da Inglaterra tem muito da incapacidade de Hodgson em mexer com o jogo inglês. Para além do desgaste físico-mental evidenciado, chocou contra o bloqueio mais básico que os islandeses fizeram ao ponto mais forte do jogo ofensivo inglês: travaram a profundidade dos laterais Walker e Rose fazendo os alas islandeses (Gudmundsson-Bjarnason) ir sempre com eles, juntando-se aos laterais a fechar as faixas. Sem “jogo exterior”, a Inglaterra bateu sempre no muro da zona de pressão central islandesa, sem promover trocas posicionais que fizessem dançar as duas “linhas de 4” que o “4x4x2 iceberg” da Islândia faz em organização defensiva. Sem Lallana perdeu-se quem pensa melhor o jogo de fora para dentro.

A Islândia jogou (e ganhou) da forma que anunciara como o ia fazer. É a equipa mais sincera deste Euro, a equipa que “nunca mente”. A Inglaterra perdeu com a sua ideia. Ou seja, não é justo criticá-los por não ter uma ideia de jogo. É justo criticá-los por não saber mexer na sua ideia de jogo. É esse o problema do futebol inglês há décadas.