Silêncios do futebol português

24 de Junho de 2008

O destino de um país é hoje um caminho iluminado pelos olhares de todo o mundo. Cada vez mais. O destino português tem uma identidade a cumprir. Uma expressão de latinidade muito própria que os ventos da globalização reinventou. Pensemos nas artes. Gosto de ver o Cristiano Ronaldo a fintar em Inglaterra da mesma forma emocional que vejo e ouço a Mariza a cantar no Hollyoood Bowl. Não existem hoje no mundo melhores imagens de Portugal do que essas. As novas gerações crescem sob a chamada world music e vendo um futebol supranacional. Leio uma entrevista de Mariza e, por momentos, faço a ligação entre saber estar num relvado e saber estar num palco. “É preciso saber controlar 32 mil pessoas de maneira a, por exemplo, fazerem silêncio!”, diz a nossa musa.

O futebol, tal como o fado, nas suas diferentes reinvenções, também necessita por vezes de silêncio. A selecção nacional saiu do Europeu com uma imagem que mescla pose altiva com olhares escurecidos. Como ver Nani sair do autocarro com as golas do fato viradas para cima e Scolari tentando ao fim de algum tempo pô-las para baixo. Os óculos escuros de Simão ou Quaresma, o mascar chicklet, os hipods, os brincos e as madeixas. A caminho do autocarro como a caminho do relvado de St. Jakob Park, em Basileia, onde nos esperavam onze alemães, muitos deles rudimentares, é certo, mas todos de cara fechada.

As derrotas fazem arte da vida. Não há drama nenhum nisso, mas, para lá das questões tácticas (incapacidade em reagir perante o inesperado 4x2x3x1 alemão e falta de competência para defender nas bolas paradas) o que mais impressionou na última aparição de Portugal durante o jogo frente à Alemanha, foram as imagens de descrença com olhares no vazio de muitos jogadores. Talvez por isso me tenha recordado daquela frase da Mariza. Os melhores jogadores portugueses já vivem noutra dimensão, muito para além das bases do verdadeiro futebol português. Custa-lhes ouvir o seu silêncio. Vivem mergulhados noutras realidades, as suas realidades particulares, muito diferentes das do futebol português profundo. As suas vidas e carreiras no estrangeiro também o ajuda a isso. O que começa por ser um salto na mentalidade vencedora torna-se, quando voltam à selecção, sem a correcta contextualização dessa nova atitude perante o jogo, quase numa fuga à diferente realidade colectiva que encontram. Pensem para isso nas diferenças entre o jogo de Ronaldo ou Simão dos clubes para a selecção.

Referia há dias Menotti que o problema de Portugal é que há muitos anos que parece sempre uma boa equipa. Mas só parece. Falta-lhe redefinir o jogo de conjunto para além de parecer, também ser. O seu futuro não depende do jogo de ilusões das bandeiras colocadas nas janelas. O novo seleccionador tem de saber procurar outras referências e a partir delas construir o futuro. No fundo, em vez de parecer, ser. Saber provocar e gerir os silêncios. Para ouvir a Mariza a cantar. Para ver Ronaldo fintar. No futebol, como na world music.

1. “Tenho uma vida lá fora…”

Silêncios do futebol portuguêsNem só de futebol vive o homem. Raymond Domenech, o seleccionador francês, taciturno no banco, frio nas declarações fora dele, passou o Europeu com a cara fechada vendo a sua equipa arrastar-se como uma sombra errante. No final, eliminação consumada, criticas a chover, perguntas sobre o jogo, erros tácticos, equipa mal feita e o técnico gaulês saltou para outro lado. “Sei bem o que quero para o meu futuro. Sei quem amo e quero pedir à Estelle para casar comigo”. Uma declaração de amor, de intenção eterna, logo depois da eliminação de um Europeu coloca-nos na twilight zone da vida. Afinal, aquela em que vale a pena viver.

Lembro-me de uma vez, antes de uma final da Taça dos Campeões, terem perguntado a Arrigo Sacchi, numa época em que todo o resto correra mal: “Mister, o que acontecerá se perderem?”. Sacchi fez uma pausa. “ Nada de grave”, respondeu. “O mundo seguirá dando voltas, o sol voltará a nascer… nada de grave, portanto”. Assim é, de facto. Para Domenech e Estelle também. Para o futuro do futebol francês, isso é outra história.

2. As selecções não se renovam. Vivem

Silêncios do futebol português1Não acredito na tese dos períodos de renovação nas selecções. Porque é natural as gerações cruzarem-se, porque a forma de construir um onze de selecção é jogo a jogo (apesar da visão global que, claro, também se deve ter) mas não tem a mesma óptica estrita de re(construção) cíclica do onze de clube. As selecções fazem-se como o caminho, caminhando. Como há dois anos não pensávamos em por exemplo Veloso para a selecção, em 2010 surgirão, acredito, outros bons nomes no onze nacional. Penso que a questão da renovação relaciona-se sobretudo com posições mais específicas onde, a cada momento, não temos candidatos de valor indiscutível para a ocupar.

A questão do ponta-de-lança já é antiga, um caso de escola mesmo. No presente, é o caso do lateral-esquerdo e de um médio-centro de segunda linha (velho 10). É, de facto, onde entra a importância do futebol-base e, na ultima instância, do túnel que separa o ultimo ano de júnior do primeiro de sénior. Um momento decisivo para criar raízes de uma carreira futura, até como especialista numa posição.

3. O pequeno e o grande seleccionador

Escolher um seleccionador é fácil. Difícil é ter uma boa ideia sobre a melhor forma de construir o futuro do futebol português. Ter uma visão global sobre todo o seu edifício de detecção e lapidação de talentos, reconstruir-lhe os pilares de forma transversal desde as selecções jovens à selecção principal. Uma política futebolística global.

Mais do que no resultado seguinte, pensar na geração seguinte. É o que distingue um pequeno político de um grande político. É o que distingue um pequeno treinador de um grande treinador. Scolari partiu e, para além das últimas imagens de descrença no banco, deixou de legado os resultados. Mais nada. O seu sucessor, em termos de ideias, vai recomeçar do zero. A todos os níveis. Portugal necessita de refundar todo o seu edifício das selecções. Voltar às raízes que desencadearam a revolução de mentalidades em finais dos anos 80. Foi esse o grande legado que deixou a geração de ouro e quem a formou. Só percebendo o passado e entendendo o presente, se pode construir o futuro. Carlos Queirós está nesses três tempos.