Sistema, jogadores e “máscaras”

03 de Abril de 2015

Todas as tácticas podem ser ganhadoras e desenhar bom (ou mau) futebol. Quando, porém, a opção por determinado sistema é, em vez de vir das nossas convicções, antes ditado pela falta de um jogador para fazer o que mais queríamos, então esse dano colateral estender-se a muitas outras posições, meio-campo e ataque. É o que sucede na atual seleção portuguesa.

A opção pelo 4x4x2 não resulta por o selecionador ter uma ideia de jogo aplicada a esse sistema. Resulta pela incapacidade de, faltando hoje um nº9 de qualidade indiscutível, não poder jogar em 4x3x3.

É, no entanto, uma fuga incompleta que não consegue ser a “máscara táctica” desejada. Por uma razão simples: a falta de um verdadeiro ponta-de-lança de raiz, dito nº9 de referencia, sente-se tanto em 4x3x3 como em 4x4x2.

É um problema transversal ao nosso estilo de jogo e jogadores. Não é mero problema de sistema que se resolva desenhando este em função dos jogadores que temos para disfarçar aquele que... não temos. A necessidade de um nº9 puro sente-se em qualquer sistema.

A criação de uma dupla de avançados exige sempre, por principio, que um deles seja mais fixo (9 puro) e o outro mais móvel, a jogar em seu torno, ou, em alternativa, que sejam dois avançados de raiz com mobilidade habitual a partir do corredor central. Nada disto sucede com os avançados do 4x4x2 da nossa seleção.

Cristiano Ronaldo procura sempre o lado esquerdo para jogar/explodir a partir desse espaço. Dany procura sempre zonas mais recuadas, fugindo a marcações, para embalar desde trás numa dinâmica mais perto do nº10 segundo-avançado que hoje é (depois de ter nascido extremo).

Desta forma, em muitos lances de ataque quando a bola estava na faixa e procurava-se um cruzamento, quem a tinha reparava que não estava naturalmente ninguém no centro ou dentro da área (na tal posição 9). Ronaldo estava na esquerda, muitas vezes sobrepondo-se a Coentrão (que jogou a extremo), Dany recuara e Nani, na outra faixa, mantinha-se aberto dentro das dinâmicas do 4x4x2 clássico.

Assim, neste contexto (sistema/características/dinâmicas típicas dos jogadores) a falta do nº9 homem de área sentia-se da mesma forma. Ou seja, as características desses quatro homens mais avançados (alas e dupla central atacante) levavam o jogo para espaços semelhantes, as faixas ou zona entrelinhas, sem ocupar espaços centrais mais adiantados, retirando assim profundidade ao jogo atacante. O 4x4x2 não consegue ser, em campo, um disfarce tático suficientemente eficaz para mascarar a falta que esse elemento faz no nosso jogar. Mesmo que este não seja um craque e até nem marque golos, a sua presença é fundamental para a mobilidade dos outros jogadores encontrar a melhor dinâmica e percepção dos espaços (sobretudo vazios) para ocupar e furar a defesa adversária.

É PRECISO UM PONTA DE LANÇA

O golo da vitória surgiu numa dinâmica em que Portugal é forte e que neste sistema arrisca perder: a subida em ruptura de um médio desde trás, como fez Moutinho. Na área a concluir, surgiu um ala em diagonal: Coentrão. Nenhum avançado da dupla atacante estava nessa zona.

Nos três jogos anteriores, a tese de que as características dos jogadores pode por vezes estar à frente da sua qualidade como critério de utilização, teve o suporte dos golos da vitória terem surgido quando já estava um ponta-de-lança em campo. A sua simples presença fazia os outros jogar melhor porque passavam a estar nos... melhores locais.

Por isso, a sensação tática final com que fico: quer em 4x4x2 ou 4x3x3, o jogo de Portugal continua a precisar de um ponta-de-lança (mesmo que ele nem jogue bem ou marque golos). É a lógica que faz uma equipa em ação: os jogadores (características e qualidade) encaixarem uns nos outros até disfarçarem carências e evidenciarem qualidades (individuais e coletivas).