Só se é Sagrado Quando se Chega a Deus!

17 de Fevereiro de 2018

De óculos de sol em estúdio, talvez para esconder os papos que lhe crescem em torno dos olhos após tantos excessos da vida, Casagrande, comentava, sem preocupações comerciais, de Neymar, após o Real-PSG, criticando-o porque “as equipas não tem que procurar um jogador com o perfil do Neymar, o jogador é que tem de procurar a equipa””. A velha estrela do futebol brasileiro dos anos 80 falava no sentido do “valor individualista” do jogador.

É uma análise que se pode estender a muitos outros jogadores e baseia-se em algo que pode ser visto (e provado) desde os tempos mais remotos dos melhores de sempre. Entender como os grandes craques não existem no vazio mas sim dentro de um enquadramento do jogo. Casagrande foi mesmo até aos locais mais sagrados entre outras grandes equipas ao longo dos tempos: “Pode-se até pegar no Santos de Pelé e nessa equipa, apesar de ter outros jogadores geniais ao lado dele, o jogo não era para o Pelé. Era, pelo contrário, o próprio Pelé que do alto da sua genialidade, descia alguns degraus para fazer parte do colectivo. Ele não ficava parado nesse degrau alto que ele estava para forçar que os outros chegassem até ele! O Maradona na seleção da Argentina era a mesma coisa, até no Nápoles onde apesar de ter tido sempre uma equipa que era toda dele. Mas no primeiro ano era ele, só depois veio o Careca e o Alemão”.

Ambos, Pelé e Maradona souberam entender as equipas por onde passaram. Ao ver hoje fotos do Nápoles dos anos 80, quem não viveu esse tempo pergunta quem são aqueles jogadores como Bagni, Di Napoli, Ferrara ou Giordano, entre tantos outros, que o abraçam. Maradona tinha “descido” ao nível deles para, continuando a ser génio, colocá-los a jogar com ele. Que feito maior do que conseguir colocar jogadores normais (ou banais) a dialogar, com eficácia de jogo/equipa, com um génio de igual para igual? Não existe nada mais grandioso.

 

Um jogador pode resolver um jogo mas para chegar até esse estatuto de todos esperarem por isso, tem de passar por diferentes etapas de criação. “Neymar ainda não é um jogador que tenha a genialidade dum Maradona ou, hoje, de Messi ou Cristiano Ronaldo em que a equipa pode ficar á espera deles resolverem. Neymar não é esse jogador e os brasileiros iludem-se com isso quando ele já mostrou diversas vezes comportamentos fora do coletivo colocando em risco a própria equipa (até como ver facilmente um amarelo em Madrid e ficar logo exposto a um segundo) e tudo se faz para ele ficar mais confortável”.

Quando Neymar não rende, procura-se o problema no.. coletivo. Um erro de perspectiva, para a equipa e para o jogador. “No Barcelona, não podia jogar onde queria porque estava Messi e tinha de sair para não ficar na sombra. No PSG, está o Cavani e fala-se que o ponta-de-lança não combina com ele”. O que estamos a fazer tratando assim Neymar? “Estamos a criar um monstro, em vez de corrigir o monstro para ele se tornar um génio!”, sentencia.

Vivemos, no entanto, tempos de alucinações fáceis e os jogadores dentro desta modernidade sabem que vende mais depressa uma grande jogada individual (que vai ser repetida em todas as plataformas até à exaustão) do que uma grande exibição no colectivo (que vai ser elogiada no sentido da equipa mas impossível de ser sintetizada numa simples jogada que venda o seu génio isoladamente).

Eu não vou de óculos escuros para um estúdio mas por várias vezes quase sou ameaçado de "fogueira patriota" ao falar de Ronaldo e Messi mas não tenho duvidas quando fujo da alucinação para a admiração e dou um passo além dessa linha. Ambos são génios que marcam para sempre o futebol, mas, pegando na perspectiva Casagrande, vejo Messi como o melhor jogador-equipa do mundo e Ronaldo como o melhor jogador-goleador do mundo. São coisas muito diferentes. Jogar pela sua equipa contra o adversário ou jogar na sua equipa contra a baliza do adversário.