SUFICIENTEMENTE LOUCOS PARA GANHAR

30 de Julho de 2014

Um país de mitos só pode chegar a uma final do Mundial seguindo o mesmo trilho. Francisco Varallo, “El cañoncito”, que foi o último sobrevivente da primeira final dum Mundial da história, disse, poucos antes de falecer (com 100 anos) o que tinha mesmo originado a derrota (4-2) naquela tarde de 1930, frente ao Uruguai, do outro lado do Mar del Plata. Negava que tivesse faltado coragem. O que tinha faltado foi loucura naquele repleto Monumental de Montevideo. “Nesse dia, não fomos suficientemente loucos para tentar ganhar!”, e confessava que durante muitos anos da vida, sempre que recordava esse jogo, revoltava-se e chorava.

Ver nesta meia-final com a Holanda, em 2014, 84 anos depois, como a equipa lutou por cada bola durante todo o jogo, como se cada uma delas dependesse a vida, diz tudo sobre o “sentir argentino”. Não tenho pretensões de colocar nenhum “ser terreno” deste onze, mesmo heroico, na galeria daqueles mitos. Existe, porém, um homem que a simboliza como mais ninguém dentro dela: Mascherano.

Ele é um “nº5” à moda antiga (o numero que na Argentina atribuem historicamente ao “6” europeu) daqueles que se impõe como o “caudillo”, o chefe da equipa, e quando faz um tackle de raiva para um corte no último minuto, roubando a bola dos pés de Robben que se preparava para destruir o sonho, ou sai a jogar com a bola desde trás, fá-lo com a autoridade, cabeça no ar e pingos de suor escorrendo, como quem diz: “aqui, quem manda sou eu!”

Foi por isso (para além de ter posto De Jong a vigiar Messi) que Van Gaal adiantou um dos seus médios habitualmente recuados no terreno, Wijnaldum. Não para atacar mais, mas sim para o marcar e pressionar, encurtando espaço de saída/manobra a Mascherano. E durante muito tempo do jogo conseguiu-o mesmo.

Esta Argentina chega à Final devendo muito mais ao seu rigor de organização defensiva do que ao talento ofensivo que raramente apareceu. A dificuldade de construção do meio-campo em fazer chegar a bola em condições a Higuain, Lavezzi, Palácio ou Aguero (com Messi longe do Oimpo do seu jogo) tornou mais claro a origem deste sucesso.

“HOJE VAIS COMER O MUNDO!”

A história dos Mundiais continua em divida pelo que a Holanda deu na revolução e evolução do bom futebol. Este novo sistema (três defesas, laterais projetados, dois médios-centro e Sneijder à procura do melhor local atrás de Van Persie-Robben) que virou modelo para Van Gall, distancia-a, porém, das raízes. Nem Cruyff ou a memória do “futebol-total” (que Michels chamada de “futebol-circular”) se revê neste estilo de busca longa da profundidade com passe longo pós-posse de bola.

Assim entramos no futebol da era moderna e no relvado atual. Só que para mim o futebol é muito mais do que isso. Sou incapaz de estar a ver um Argentina-Holanda e (para além duns acordes de tango no subconsciente) não ser invadido na mente pelas imagens mágicas de “Don” Diego ou as fintas secas do mago Cruyff.

A mitologia argentina percorre Gardel, Che, Evita, Fangio, Maradona. Por isso, esta crónica, tem de acabar com o homem do presente que a inspirou: Mascherano. Depois daquela bola roubada a Robben no último minuto, as palavras ditas a Romero antes dos penaltys: “Hoje vai comer o mundo! Hoje vais tornar-te herói!”