Suficientemente loucos para jogar!

01 de Abril de 2015

Suficientemente loucos para jogar!

Os jogadores, em campo, estão enredados em todos os tópicos inimagináveis. Salvo os abstraídos das suas obrigações (e implicações) profissionais, todos entram num

mundo paralelo da sua existência. Penso nisto vendo como Emenike, ponta-de-lança nigeriano do Fenerbahce, desesperava em pleno jogo com os assobios dos seus próprios adeptos após ter falhado um golo isolado.

A história já vinha de trás, de outros jogos, em que também falhara golos feitos. Bastou, então, perder depois o controlo duma bola, para todo o Estádio lhe cair em cima. Emenike estourou e pediu para sair em gestos insistentes para o banco. A cena prolongou-se. Quando parecia acalmar, explodiu e saiu em corrida tirando a camisola. O banco tentou-o travar, ele queria sair, hesitava, Emre, o capitão, esbracejava com Bilic, o treinador adversário, e com a própria situação, fazendo o gesto de que se quisesse, ele que fosse embora. Emre é turco por dentro e por fora. Para quem a pressão é algo que existe até no berço para espernear e tentar sair das grades que o rodeiam.

Quando se fala em jogar na Turquia, fala-se logo no ambiente infernal dos estádios. É verdade, mas nunca vi isso como verdadeiramente positivo para as equipas turcas. Para os adversários, só é assustador se forem menos experientes. Para as equipas grandes, tudo normal. O inferno é um local por onde já estão habituados a passar.

Para as equipas turcas tal transforma-se mais em pressão do que apoio.

Os adeptos com essa atitude exigem que elas sejam mais do que realmente valem e joguem sempre a atacar. Ficam assim sempre na iminência de se desequilibrarem defensivamente quando perdem a bola. Algo que acontece muitas vezes, com clubes e seleção, e nessa atmosfera acabam a perder sofrendo golos em... contra-ataque. Não faz sentido. Nem emocionalmente, nem taticamente.

Mas é assim que se vive o futebol na Turquia. E é isso que está em causa na situação de Emenike. Antes de jogar aquele jogo, Emenike tinha de saber.. viver aquele jogo! São coisas diferentes mas que em campo (na relação ser humano-futebolista) coexistem inseparáveis todo o tempo.

Emenike acabaria por sair ao intervalo, na intimidade do balneário. O treinador Ismail Kartal tentou-o impedir a confessou que até antes do jogo fez tudo para o ajudar. Como? “Cheguei a rezar para que ele marcasse um golo e acabasse com isto!”. Entendo, claro, a boa fé de Kartal mas este caso não estava no purgatório apenas em tese. Estava mesmo no relvado.

Há vasos comunicantes (jogo-adeptos) que não são possíveis de dominar pelos jogadores só com argumentos passionais ou racionais. Não se pode considerar fraco um jogador que tem um orgulho tão grande mas ninguém consegue viver dentro de si mesmo só ante o perigo. São amigos que matam.

TURQUIA: ADMIRÁVEL MUNDO LOUCO

É importante frisar que nada disto teve como impulsionador uma ação racista. Do outro lado, como nº9 do Besiktas estava o senegalês Demba Ba, e o golo da vitória do Fenerbahce seria marcado, ironicamente, por outro nº9 do Senegal, Mousa Sow, enquanto no lugar de Emenike já jogava o possante camaronês Webó.

A Liga turca é, na luta entre os três primeiros, a mais competitiva da Europa nesta altura. Galatasaray, Besiktas e Fenerbahçe estão separados por dois pontos, faltam nove jogos e na penúltima jornada vai jogar-se um Galatasaray-Besiktas.

O último derby que “engoliu” Emenike confirmou, num bom jogo, quais são os melhores médios com bola e que vale a pena olhar para Alter Potuk no Fenerbahce, um pouco descaído sobre a esquerdo (com Diego no meio) e para Ozyakup, talvez o único nº10 genético do futebol turco atual, no Besiktas. Joga à frente de Emre Belozoglu, um jogador que é o carácter com duas pernas. Para o bem e para o mal. Como quase tudo no admirável mundo louco do futebol turco