Tácticas Liga 2004/2005

05 de Outubro de 2004

Bloco de Notas: O FC Porto de Victor Fernandez

Observando o actual FC Porto, ainda com as frias e perfeitas exibições do onze de Mourinho na mente, é pacifico concluir que equipa perdeu a consistência que tinha à frente da defesa. Falta-lhe hoje, sobretudo para jogos como o de Londres, frente ao Chelsea, um jogador como Pedro Mendes, para funcionar como espécie de "bússola" do colectivo, ao lado do "farol" Costinha, na bífida missão de cobertura de defensiva e primeiro passe para o contra ataque. Um jogador que muito sente esta transição de sistema é o motor Maniche, agora colocado á frente de Costinha, deambulando a toda a largura do terreno, e atrás de Diego.

Sem as mesmas referências anteriores, entre elas Deco e as suas faltas “tácticas” que impediam o adversário de sair para o contra-ataque quando a equipa perdia a posse da bola, Maniche sente muitas vezes não estar a pisar “terra firme” em certas posições do terreno em face da posição da bola e, sobretudo, da forma como as três linhas perdem coesão e o bloco deixa de existir, sobretudo em termos defensivos. A cultura de jogo de Maniche é, por isso, outra, mais rigorosa do que a concepção de Fernandez, pelo que o seu estilo vive hoje um dilema existencial que, no jogo com o Belenenenses apenas se soltou devido, sobretudo, á expulsão de Juninho Petrolina, o que abriu mais espaços de movimentação e retirou grande parte das suas obrigações defensivas iniciais.

Tácticas Liga 2004 2005A intenção de Victor Fernandez em jogar em 4x3x3 choca com as características dos seus médios e do facto de sem um extremo esquerdo natural, encostar Derlei ao flanco esquerdo quando o brasileiro é, claramente, um jogador mais de área, ideal para jogar em 4x4x2, na frente de ataque, entre os centrais, com outro avançado a seu lado. Limitado ao flanco esquerdo, perde eficácia e, muitas vezes, quase desaparece do jogo. Neste contexto, desenhando o sistema predilecto de Fernandez, explodem os rasgos individuais do “Mustang” Quaresma sobre a direita, enquanto que sobre o centro Diego, um craque puro, começa a explicar como se escreve bom e belo futebol em ritmo europeu e arte sul americana.

Bloco de Notas: O Benfica de Trapattoni

Tácticas Liga 2004 2005Na Luz, após tentar o 4x4x2 frente ao Sp-Braga, Trapattoni não teve dificuldade em entender que o melhor sistema para o seu Benfica é antes o 4x2x3x1, visto a dinâmica ofensiva e as oportunidades de golo criadas por uma equipa não crescerem na proporção em que alinham avançados no seu onze. Como ponta de lança eleito para jogar entre os centrais adversários: Nuno Gomes. Neste sistema, ao contrário do 4x4x2, no qual jogaram Nuno Gomes-Sokota na frente, com o meio campo quase sempre em linha, traço vertical só desfeito nas subidas pelas faixas de Simão e João Pereira, faltou um organizador de jogo central, posto onde surgiu Zahovic no jogo de Guimarães. Com o esloveno em campo, o onze ganha um cérebro, muitas vezes não muito rápido a pensar e a executar, mas decisivo no plano da ocupação posicional e leitura de jogo. Nesta perspectiva de análise, há um jogador que parece sub-aproveitado neste Benfica, sobretudo tendo em conta as suas enormes potencialidades como transportador de bola e dinamizador de jogo ofensivo: Manuel Fernandes.

Colocado de inicio ao lado de Petit, na recuada dupla de trincos-volantes, fica demasiado recuado e restringido a funções de cobertura defensiva, sobretudo porque o elemento com maior liberdade para subir é Petit. A categoria de Manuel Fernandes salta á vista na forma destemida como conduz a bola. Aos 18 anos, concilia irreverência com classe.

Passada larga e perfeito controle de bola. Passa e, de imediato, corre para desmarcar-se. Não é o tipo de jogador que passa e fica. Nesse sentido, faz lembrar aquela velha teoria dos argentinos para jogar bom futebol: “toco e me voy..” Manuel Fernandes é esse tipo de jogador, com uma margem de progressão enorme, tem fôlego para ser um “box to box”, ou, partindo mais do centro, assim como ao jeito de Verón, gerir os avanços e recuos a partir do meio campo. Necessita, porém, que Trapattoni lhe retire as amarras defensivas. Apesar dos viscerais receios do tacticista técnico italiano, este diamante com aroma africano já possui cultura táctica para isso.

Bloco de Notas: O Sporting de Peseiro

Tácticas Liga 2004 2005O Sporting de Peseiro é hoje um verdadeiro mundo de problemas, onde se cruzam questões tácticas, técnicas e de valor individual de alguns jogadores. Tacticamente, depois das boas indicações dadas no anterior jogo frente ao Rio Ave, quando o onze se esquematizou em 4x2x3x1, com dinâmica de 4x3x3, Peseiro regressou, frente ao União de Leiria a adoptar um indefinido 4x4x2 que, sem extremos nem um organizador de jogo capaz no centro (para além da enigmática saida de Douala, que, em Vila do Conde dera vida ao jogo pelas faixas) mergulhou a equipa, durante os noventa minutos, numa profunda crise exibicional, sem nunca criar qualquer circuito preferencial de jogo. Esta falta de referências para pensar o jogo emerge desde logo da simples observação da sua linha de médios: Rogério, Custódio, Tinga e Hugo Viana. Nenhum deles possui verdadeira vocação para organizador de jogo. Rogério, que destacou-se no Brasil sobretudo como lateral-direito (posição na qual fez a sua melhor época), é sobretudo um trinco volante.

Tinga é um médio vagabundo cuja a definição concreta da sua função em campo ficou perdida há já alguns anos quando começou a despontar no Grémio. Entre volante e médio ofensivo, transformou-se num médio de combate, que corre muitas vezes sem direcção, e, raramente desenha as linhas de passe mais adequadas.

Quando, nesta anarquia de movimentos, consegue, por momentos, situar-se no melhor lugar, o seu bom futebol ainda emerge a espaços, mas na desordem colectiva que é o actual futebol do Sporting isso raramente acontece e, assim, na maior parte do tempo, Tinga é um a sombra errante em campo. A Custódio ainda falta, naturalmente, estatuto para se impor na condução da bola, enquanto que Hugo Viana é o tipo de jogador para organizar o jogo partindo de posições mais recuadas, como fez no seu inicio de carreira. Colocado mais adiantado, quase nas costas dos pontas de lança, o seu futebol essencialmente curtinho perde a visão periférica que tinha quando arrancava da frente da defesa. Em qualquer posição, porém, o seu futebol continua a revelar uma grave lacuna que pode comprometer o progresso da sua carreira: é excessivamente lento. Foi essa, aliás, uma das principais razões porque falhou no futebol inglês.

Como o único lugar em campo onde um jogador pode ser algo lento é como trinco, Hugo Viana para relançar a sua carreira, necessita urgentemente de regessar á sua posição natural, sob a pena do seu futebol cair numa crise existencial irrecuperável. Face a este cenário, fica claro que o único homem capaz de pensar o futebol do Sporting é, ainda, o irreverente Pedro Barbosa, sobretudo se escudado pelo labor (entenda-se técnica e garra) de Rochemback, a regressar de uma lesão e ainda sem ritmo. No ataque, ao mesmo tempo que se confirma que a contratação de Pinilla foi, digamos, um claro erro de “casting”, a grande referência continua a ser Liedson, um jogador capaz de sozinho virar o curso de um jogo, mas que necessita urgentemente de um ponta de lança capaz de entender o seu futebol de zigzags e combate. No flanco direito, Douala já deu provas de merecer a aposta na titularidade.

Sp. Braga: A dimensão europeia

Tácticas Liga 2004 2005Exceptuando algumas fantásticas aventuras do Boavista (semifinalista da Taça UEFA em 2002/03), os clubes portugueses da chamada segunda linha, voltaram a confirmar, esta época, a sua leveza competitiva internacional. Maritimo (apesar das brilhantes exibições frente ao Glasgow Rangers, só derrotado nos penaltys), Nacional e Sp.Braga foram eliminados logo na primeira eliminatória e, assim, impedidos de entrar na nova fase de grupos onde poderiam ganhar maior projecção europeia. Dos três, o afastamento, digamos, menos natural, foi, claramente, o do Sp.Braga, afastado da prova por uma pouco mais que lutadora mas rudimentar equipa do Heart, terceiro classificado do fraco campeonato escocês. Antes, durante e depois da eliminatória, Jesualdo Ferreira, treinador dos arsenalistas, falou em falta de experiência europeia para justificar a derrota, mas mais do que qualquer status internacional, o que condenou o Sp.Braga, nos dois jogos frente ao Hearts, foi antes falta de inteligência. Uma constatação mais evidente perante o facto de, teoricamente, no papel e no relvado, o Sp.Braga ter uma equipa, técnica e tacticamente, superior á do Hearts. A excessiva pressão sentida pelos jogadores e as equivocas abordagens tácticas nos dois jogos, deitariam, no entanto, tudo a perder.

Tácticas Liga 2004 2005No primeiro jogo, desconhecendo a forma de jogar e as características individuais dos jogadores do Heart, longe de ser uma tradicional equipa britânica só capaz de pressionar em “jogo directo”, adoptou uma postura excessivamente defensiva, amputando a equipa do seu elemento mais criativo e cerebral na organização e ligação meio campo-ataque, Jaime, ao mesmo tempo que destacava Kenedy para vigiar o ponta de lança De Vries.

Com esta postura, para além de condicionar o contra-ataque do onze, libertou aquele que era, de facto, o jogador mais perigoso do Hearts no ponto de vista de elaboração do jogo, o nº10 Hartley. Sem deslumbrar, os escoceses foram, assim, pegando no jogo, até chegarem a uma vantagem impensável antes do jogo face á diferença de valor entre as equipas, acabando o terceiro golo escocês por surgir quando na tentativa de segurar a derrota pela diferença mínima, o trinco Luís Loureiro passara a jogar encostado aos centrais.

Em Braga, no segundo jogo, inverteu a situação, Jaime surgiu entre linhas como enganche com a linha atacante num sistema de 4x2x3x1 que evoluía para 4x3x3 a atacar, fruto da subida dos alas-extremos Wender, á esquerda, e Paulo Sérgio, á direita, com João Tomás no meio, em cunha entre os centrais, mas na linha de contenção intermediária, ao lado de Vadinho, o técnico Jesualdo Ferreira destacou, desta vez, Kenedy para marcar o tal jogador mais criativo do onze escocês, Hartley. O equivoco residiu, porém que, com a vantagem de dois golos, Craig Levein, treinador do Hearts recuou as suas linhas, esquematizou-se em 4x5x1, e em vez de procurar elaborar jogo desde trás como fez na Escócia, onde era obrigado a ter a iniciativa de jogo, optou mais pelos lançamentos longos para o ponta de lança De Vries, desta vez vigiado pelo central por Paulo Jorge. Neste contexto, Hertley raramente pegou na bola e o Sp.Braga perdeu mais um elemento criativo no meio campo, déficit que Jesualdo Ferreeira só corrigiria ao minuto 44 quando trocou Kenedy por Castanheira, numa altura, porém, em que a eliminatória já estava muito comprometida após Paulo Jorge (muito nervoso, como toda a equipa) ter oferecido o golo do empate a De Vries num mau atraso feito ao hesitante guarda redes Paulo Santos.

No momento em que era mais imperioso incutir tranquilidade aos jogadores e colocar ordem na “cabeça” da equipa, o status arsenalista, equipa técnica e demais estruturas que o rodeiam, ainda aumentaram mais a pressão sobre o grupo, que em vez de sentir o jogo com o Herts como apenas mais um, sentiu-o antes quase como um encontro com a história para o clube.
PLANETA DO FUTEBOL (PORTUGAL) A partir de agora, ciclicamente, o Planeta do Futebol passa, também, a explorar o universo técnico-táctico do futebol português.

Um espaço de reflexão sobre sistemas tácticos, jogadores, memórias e distintas filosofias de jogo, no qual não entram polémicas de arbitragem nem outros casos que lamentavelmente teimam gravitar em torno do nosso futebol.