Ter a posse ou ter a bola? Eis armadilha do futebol atual

29 de Setembro de 2014

Depois do último título, com Vítor Pereira, o FC Porto foi perdendo as peças do seu meio-campo. A cada época ou no seu decorrer. Moutinho, Lucho, Fernando. Entra, assim, neste novo ciclo-Lopetegui sem nenhuma dessas referências e em pleno processo de reconstrução. Era impossível esta progressiva perda de pedras bases do seu futebol (em 4x3x3) não se fizesse notar, tal a qualidade do trio que foi progressivamente partindo. O último a partir, saiu do local onde está peça mais sensível do debate que envolve a teoria da rotatividade de Lopetegui. Tirando a questão dos quatro defesas, e com Jackson-Brahimi sem contestação na frente (abre-se lugar a outro extremo) a questão coloca-se essencialmente no meio-campo, na definição da posição 6: o pivot.

Alguém já parou para pensar por que Ruben Neves joga tão bem naquela posição (onde fez a formação) e não o consegue fazer quando sobe um pouco no terreno, para n.º 8? Porque tem essa cultura de jogo. Cresceu a aprender a driblar as dificuldades do jogo na outra posição. Não acho preocupante, como se fosse de cristal, só ter 17 anos porque joga com a maturidade e à vontade como se tivesse mais dez. Até na cara dele, nos grandes planos, parece ter mais idade pela forma como encara e joga sem medos nem receios. O que um jogador é tem muito a ver com a forma como cresceu.

Casemiro é um bom jogador que busca perceber o jogo naquele lugar porque cresceu de outra forma. O futebol, quando a exigência competitiva sobe, raramente admite que o tentem enganar muito tempo. O problema da rotatividade do FC Porto resume-se, portanto, a dois jogadores. Ou a um, se quiserem. O pivot. Ruben Neves ou Casemiro. Descubram as diferenças. Estão evidentes em cada jogo, a cada jogada.

O Sporting também identificou o seu maior problema tático-dinâmico no meio-campo. André Martins saiu, entrou João Mário e a equipa, de repente, encontra outra lógica de movimentos. Pode ser? Claro que não. O que João Mário trouxe, foi, tão simplesmente, outro conceito de futebol. Continua a cair na direita, para deixar liberta a passagem criativa a Nani, mas deu sobretudo definição de modelo de jogo. Deu critério de posse. E o sector voltou a entender Adrien.

Ter a bola e ter posse não é a mesma coisa. Será estatisticamente. No jogo, seu controlo e circulação, é muito diferente. O FC Porto teve 82% de posse contra o Boavista e ter tanta bola acabou por mais do que domínio, revelar incapacidade, em muitos momentos, para descobrir espaços numa equipa muito fechada em bloco-baixo. Fez muitas aproximações à baliza do Boavista mas acabou o jogo com a bola debaixo do braço sem fazer um golo. Neste contexto, ter a bola é um exercício possessivo (não deixa o adversário tocar nela) mas não de desequilíbrio.

Portanto, ter a bola ou a ter posse da bola? Ter o controlo dos espaços ou ocupar os espaços mais adiantados durante mais tempo? Nada disto é obrigatoriamente causa (construção) e consequência (golo) num jogo. André Martins toca mais vezes na bola mais segura-a menos. João Mário toca menos vezes na bola mas segura-a a mais. Por principio, seria mais indicado o primeiro mandamento. André Martins faz, porém esse exercício de rotura.

João Mário fá-lo mais pensado ao mesmo tempo. Por isso tem o timing de soltar/passar a bola. O atual processo de construção do jogar leonino de Marco Silva necessita mais desta segunda vertente.

Tudo isto é uma boa forma para debater o jogo do FC Porto e Sporting. Duas equipas que, no fundo, na raiz do jogo, acredito que se vão defrontar mais para controlar os espaços que a bola.