Tirando os “cortes de cabelo”

29 de Março de 2016

A seleção atacou (e jogou) melhor contra a Bélgica porque... defendeu melhor. É tudo uma questão de equilíbrios. Já disse várias vezes: aqueles dois avançados (Ronaldo e Nani) podem-nos fazer ganhar mas não nos podem fazer... jogar bem. Nem foi por este adversário ter dado mais espaço e não se fechar. Essa questão de ter mais dificuldade em ataque continuado, Portugal sempre teve. Mesmo quando não íamos a lado nenhum. É uma questão do estilo latino mais de contra-ataque ou de exploração de espaços vazios para ataque rápido.

Afunilando esse problema global para a atualidade, em 4x4x2 e dois avançados que pura e simplesmente se demitem do processo defensivo, é imperioso que o meio-campo tenha rotação defensiva de transição e organização. Isso apareceu quando nas alas (mantendo no centro uma dupla que sabe estar atrás da linha da bola e conduzi-la, Danilo-Adrien), surgiu João Mário (no seu melhor nível de fechar e abrir) e, sobretudo, reapareceu André Gomes, descaído para fechar e dar... equilíbrio.
Ambos, claro, sabem também depois jogar muito bem em posse, mas por principio têm uma noção de “responsabilidade táctica” de cobrir espaços (a noção do processo defensivo e sua execução como equipa) que não se compara a extremos/avançados puros (como Quaresma, Dani ou até Rafa).
E assim a equipa esteve melhor no conjunto ataque-defesa-ataque, sem partir esta natureza inquebrantável de ligação que o jogo deve ter.

É este o nosso padrão estilístico e assim a importância dos alas/avançados começa a cair em nome do equilíbrio táctico. Quaresma é um revulsivo para as segundas-partes, Rafa está em “processo de explosão” e Dani perde cada vez mais espaço nas opções de Fernando Santos em nome do obrigatório equilíbrio defesa-ataque-defesa.
Ou seja, o nosso padrão de médios tem de ser de médios que saibam defender (ou seja, jogar em todos os momentos do jogo mas com esse principio).
Os extremos vivem hoje, portanto, na “sombra táctica” entre estas duas realidades: a dos “médios tácticos” e a dos “avançados soltos libertinos”. Não fazem parte conceptualmente da ideia base de equipa-equilíbrio. Não por culpa deles, mas por culpa da conjuntura geral descrita. Não podemos querer ter pretensões de ganhar concursos de beleza futebolística. Só assim, sem dilemas estéticos (tirando os cortes de cabelo) poderemos fazer uma seleção verdadeiramente competitiva.