TODA A PERFEIÇÃO TEM ESCRITA A PALAVRA FIM

27 de Julho de 2014

Terminou no local ideal, o mítico Maracanã, a longa caminhada de vitórias da seleção espanhola. A sua ideia de jogo, fonte de inspiração, permanecerá. Desde 70 que não se assistia uma revolução estilística tão marcante na história do futebol. Outra questão são as suas condições de operacionalização noutros locais. Tal como o “futebol-total”, o denominando “tiki-taka”, quase fosse futebol de banda desenhada, precisa de intérpretes que o entendam (pensamento) e saibam executar (táctica e técnica, ambas em permanente visão individual-colectiva).

Costuma ligar-se o fim de um ciclo a um fim de uma geração. É uma das formas de analisar a questão mas não é a única, porque as ideias não morrem e podem continuar a inspirar. No caso espanhol, essa geração tinha, porém, um rosto claro: Xavi, o arquiteto. A curva descendente da sua carreira (34 anos) levou consigo a fonte de aplicação da ideia. No resto, vendo bem, da base do onze só há mais dois jogadores acima dos 30: Xabi Alonso e Villa. O difícil é encontrar uma nova referencia indiscutível para o estilo.

Iniesta pode ser esse homem (mas gosta mais de ser avançado, ou jogar mais adiantado) e Fabregas entrou num processo que tornou imperceptível a raiz do seu bom futebol ao ponto de hoje ser impossível dizer em que posição verdadeiramente joga (ou quer jogar).

No jogo, a Espanha falhou em todos os sectores: eros na defesa (sobretudo individuais), no meio-campo (faltou circulação em progressão com Xabi Alonso-Busquets demasiado juntos/presos) e no ataque (onde o desvio conceptual de meter Diego Costa, o oposto do “falso 9” ou do ponta-de-lança que joga com a equipa) confundiu a forma habitual de acabar as jogadas. De todos os erros e exibições falhadas, esta ultima foi a mais grave porque traiu um estilo.

“Provavelmente a nossa quota de êxito e alegria já estava esgotada”, disse Xabi Alonso no final. Os jogadores são os primeiros a perceber, no balneário, no caminho pelo túnel (basta ver os olhares) e por fim dentro do campo, quando toda a perfeição tem implícita algures, como diria Yourcenar, a palavra fim.

O GATO QUE ENSINA A VOAR

TODA A PERFEIÇÃO TEM ESCRITA A PALAVRA FIMSem ruído, o Chile emerge como a seleção com o projeto de jogo mais atrativo deste Mundial. Sampaoli maneja dois sistemas (4x3x1x2 ou 3x4x1x2) parecendo que tem os jogadores controlados por cordas como marionetas. Dá-lhes uma dinâmica interligada nos diferentes momentos do jogo que desequilibra os adversários a atacar (fantástico os recuos e passes de Alexis, com Vargas a surgir em desmarcações) e mantem sempre o coletivo equilibrado a defender (sentido posicional do “médio-bússola” Diaz, disciplina veloz a dobrar dos três centrais, e laterais que sabem quando devem sair ou ficar). A única mudança que fez do jogo anterior foi tirar o criativo 10 Valdivia, subindo mais Vidal para pressionar no centro, o que condiciono logo na origem o jogo espanhol. Na essência, a movimentação da ideia é igual.

Esta onze do Chile devolve-nos o direito a ter “sonhos de futebol”. Como o “gato que ensinou o gaivota a voar”, na sublime pena de Luís Sepúlveda. Uma finta por ali, uma recuperação no sitio certo, um drible noutro lado, um passe bem feito, e termina num golo. Suficiente para mostrar o que é “jogar bem”!