TREINADORES: ROSTOS E IMAGENS

21 de Janeiro de 2007

Jesualdo e Fernando Santos, fumo e pressão

Uma imagem, diz-se, vale por mil palavras. Observar gestos e rostos dos treinadores diz, assim, muito dos seus estados de espírito. Sem fumar cigarro atrás de cigarro, Jesualdo tornou-se um treinador de rosto, digamos, mais «humano». A transformação táctica começou no momento defensivo. Fiel ao 4x3x3, contornou a derrota de Braga, cresceu como equipa sem Anderson e agora raramente se desequilibra em campo. O professor cultiva um ar carrancudo, mas não me lembro de o ver tantas vezes satisfeito, a rir-se até, como nesta meia-época no Porto. Fernando Santos ainda não transmite a uma imagem segura no decorrer dos jogos.

Olha-se para ele e, na maioria das vezes, vemos um homem apreensivo. Eu sei que é esse o seu ar natural no banco. Cara fechada, o tique no pescoço como a gravata apertasse (mesmo quando não tem gravata) mas, futebolisticamente falando, percebe-se o que mais o preocupa no seu Benfica. Pressing. Uma palavra que, no futebol, quase se tornou num modo de vida Pressionar para defender, quanto mais à frente melhor.

Pressionar para jogar, para atacar. Não para viver. O onze vai percebendo isso pela mão de Katsouranis. Simão e Miccoli dão-lhe outra dimensão. A sua imagem flutua por entre este universo.

A ansiedade de Paulo Bento

TREINADORES ROSTOS E IMAGENSPaulo Bento regressou à terra. Esforçasse para controlar melhor os impulsos e protestos descontrolados, com o vernáculo a galope, mesmo nas repetições em câmara lenta, mas a ansiedade passou a dominar o seu rosto. O problema de jogo do Sporting, nem me parece, na essência, que seja o de se ter tornado cada vez mais previsível, mas antes o de não ter jogadores capazes de lhe dar esse indispensável traço de imprevisibilidade. Ou seja, em termos gerais, o 4x4x2, por não contemplar extremos de raiz e ter, no papel, uma ocupação do terreno menos racional do que o 4x3x3, é um sistema que pede maior dinâmica de movimentos aos jogadores para ocupar todos os espaços. Os flancos, principalmente. Pede-se laterais a subir e médios com mobilidade para, mesmo começando em zonas mais interiores, descaírem depois para as alas.

Com Nani, Djaló e Carlos Martins, cada qual pelas suas razões, longe da forma inicial, o modelo perdeu imaginação. Será isso que passa pela cabeça de Paulo Bento quando, durante os jogos, o vemos de pé meio encostado ao banco, de olhar esbugalhado e ansioso. Ele quer jogar assim. É esse o seu modelo. Acredita nele, mas sente que faltam argumentos para provar que pode ganhar sem trair estas suas ideias.