Sevilha: A “poção mágica” de Emery

23 de Maio de 2016

“A experiência no futebol serve sobretudo para gerir os maus momentos. Emery é um mestre nesse contexto.”

Olho os onzes em campo e a primeira pergunta que faço é se este será um jogo para os detalhes dos melhores tecnicistas em campo (e há tantos como Banega, Coutinho...) ou para os mais de combate e contacto (há outros tantos, Can, Krychowiak...).

Ao ver como N`Zonzi (1, 93m. de médio esguio e passada larga) sair do duplo-pivot do Sevilha e subir 40 metros no terreno para promover uma batalha aérea quando vai ser metida uma bola em profundidade, receio que o jogo caia` mesmo mais nessa dimensão física e fuja á técnica. Mas, de repente, ao mesmo tempo, vê-se que quando Banega pega na bola fica muito acima o jogo. E consegue nesses primeiros 20 minutos quase como um “clinico táctico” em campo. São estes os jogadores mais valentes. Atrever-se a pedir a bola num relvado que é um verdadeiro “campo de minas”

O Liverpool não espera muito da sua construção de jogo. Uma equipa que sai a pressionar e não deixa respirar, quer um jogo mais dinâmico/combativo com Can-Milner no meio a “esticar” até a bola ir ter aos avançados.
Lallana não tem um ritmo muito alto mas é aquele que interpreta melhor essas ações de ataque (ou contra-ataque) conduzindo ou segurando a bola. Como equipa, este onze de Klopp é mais sábio a travar o jogo mal perde a bola (“faltas tácticas” ou encurtamentos). Com bola, a organização espanhola dá um espaço muito maior ao que se pode dar a um jogador da categoria de Sturridge. Tem uma presença física e técnica tremenda nos últimos 30 metros sem dar referências aos defesas e faz um golo de encantar.
Entre a pressão física dos médios e o jogo tecnicista dos avançados do estilo-Liverpool (intensidade + pausa) não entrava então nenhum pensamento do Sevilha onde Banega passara a pedir bola quase em desespero para não deixar fugir o jogo do seu território.

A experiência no futebol (sobretudo em Finais) serve sobretudo para gerir os maus momentos. Nesse sentido, o que o intervalo pode fazer a uma equipa viu-se na forma como o Sevilha regressou dos balneários e mal pisou a relva parecia outra equipa. A equipa e Banega passou a “juntar-se”, com Koke e Gameiro movendo-se à frente. Uma “nova equipa”, na cabeça e nas chuteiras, com as palavras de Unay Emery, talvez o melhor treinador menos citado quando se fala na elite dos bancos europeus.

A bola pode chegar poucas vezes “jogável” a Gameiro mas não é por ele não se mover. É um 9 que não para um segundo, o mais baixinho em campo que transforma em oportunidades claras jogadas que parecem sem saída (e inventa a primeira bola de golo com uma bicicleta ao lado).
No primeiro minuto da segunda parte, dança, avança, recua em um-dois metros a ver se sai o centro atrasado ou para a frene de Mariano e acerta no “timing” de receber e rematar. Por fim, encontrara o metro que precisava para marcar. Falha o segundo quando logo a seguir tem um “latifúndio de metros” para conduzir, rematar, travar e... perder a bola. Os grandes pontas-de-lança não têm que pensar tanto. Em três minutos apenas após o intervalo, o Liverpool de Klopp estava “humanizado” para o Sevilha. E a partir dai apareceu o “elixir de Emery”

A forma como mudou o curso do destino do jogo é o triunfo do “futebol bem jogado”, com ordem toque e intensidade. Muda e gere os ritmos de jogo com jogadores que sabem sair das profundezas de um jogo adverso para se tornarem no seu “dono absoluto”. Raramente se fala de Unai Emery para grandes clubes na hora do mercado. Para mim isso é um enigma porque revejo nele do melhor que se pode ter no cruzamento entre identidade e estratégia numa equipa de futebol. O seu Sevilha joga com um frasco de veneno táctico amarrado à cintura e nunca perde a “bússola” dos jogos mesmo quando estes o colocam em território estranho.
Este Sevilha tem o segredo europeu da “poção mágica” de futebol.