Um “arranha-céus” a mais

14 de Outubro de 2016

No futebol não há milagres. Nada acontece por acaso. A explicação é sempre terrena e está sempre no relvado. É só questão de a procurar.

A resistência do onze de Sintra tinha um ponta-de-lança desterrado na frente, o gigante Abdoulaye Ialó, que ia a todas as bolas sem medo. Um 4x5x1 com os jogadores muito juntos. Reduzindo ao máximo o campo onde jogavam os quatro criativos avançados do Benfica (Carrillo-Zivkovic nas faixas, Cervi-Zé Gomes, no centro), não os deixavam mexer-se muito e quando eles queriam entrar na área, fechava-lhes, em diferentes locais, as “portas na cara”.

No meio deste rigor sem bola, era curioso ver a semelhança morfológica, sobretudo nas mudanças de direção, de Martin Águas com o “pai Águas”, numa hereditariedade onde não está a mesma vocação de 9 puro, mas mais de segundo avançado (ou até médio, como foi obrigado neste jogo a ajudar a fechar).

Abdoulaye prometera fazer um golo, o outro, o “filho Águas”, prometera pelo menos ganhar uma bola de cabeça a Luisão. Fizeram, juntos, mais do que isso. Com frieza, Martim marcou o penalty que deu o empate após Ederson ter derrubado Abdoulaye que ia isolado fazer o golo. Não há Luisão nesta história, só um mau atraso de Celis.

Para equipa grande que está sempre a atacar contra um muro, é normal neste tipo de jogos o “abrir da porta defensiva” ser feita por um jogador vindo de fora do espaço natural dos avançados. Ou seja, através da entrada desde trás dum médio que, rompedor, surge como uma espécie de “avançado desconhecido”. Foi assim que surgiu Danilo, fazendo, no início da segunda parte, o golo do Benfica que parecia ser desbloqueador. Não foi porque em ternos de pensamento colectivo o modelo de jogo encarnado estava a jogar. Apenas estavam onze jogadores em campo.

Zé Gomes é um projeto de craque, mas não era fácil para ele ver a baliza sendo essencialmente um nº9 de mobilidade e desmarcação (e só com golo depois), quando era necessária uma presença mais fixa (e intimidatória) entre os centrais adversários.

Durante todo o jogo, uma equipa vinda das profundezas fizera um jogo taticamente equilibrado, seguro a defender e a tentar ver o contra-ataque. Em campo neutro. Uma equipa que deixa um nome para fixar. O homem que a fez no corpo e estratégia: o treinador Hugo Martins.

A resistência do 1º de Dezembro terá só sido dominada pela ansiedade quando viu uma placa de descontos com... seis minutos. A sua exibição sem sombra de antijogo não imaginava tanto tempo a mais na cabeça. No último lance, no último canto, um “arranha-céus” destruí-lhes o sonho. Neste fim de história já há Luisão. A ganhar a bola nas alturas e fazer o golo. Na realidade táctica, fica o testemunho de que há bom futebol em muitos locais menos visíveis.