Ele é um grito de ironia

13 de Outubro de 2016

Por entre pinguins e ovelhas, num terreno inóspito de Torshavn, ressurgiu outra espécie, essa rara e que se julgava há anos inevitavelmente em extinção: o ponta-de-lança português. É estranho ressurgir tão longe, nas Ilhas Faroé, em forma de três golos, mas vendo bem, pressentia-se que apenas procurava o local certo para o confirmar. André Silva fez golos como lutador, de cabeça e até num remate com ressalto. É mesmo o tal “brinquedo novo” que o nossa seleção e sistemas tácticos adjacentes podem agora manejar.

Na seleção como no clube, o FC Porto, todos reconhecem o seu valor, mas todos também debatem qual a melhor fórmula para ele jogar em dupla na frente de ataque. A situação causa-me, honestamente, alguma perturbação. Porque durante longos anos, a seleção e o FC Porto, jogaram em 4x3x3 (mesmo que no onze nacional esse lugar no pós-Pauleta fosse um terreno árido sem especialista).

Agora que esse nº9 reapareceu, é quando a seleção optou pelo 4x4x2 (como reação de Fernando Santos, confrontado antes com essa ausência) e Nuno, no FC Porto, rompeu com essa mesma estrutura portista de referência do passado, para passar a um preferencial 4x1x3x2 (debatendo-se qual o companheiro de André Silva na dupla atacante, se Jota, Adrián Lopez ou Depoitre, embora, neste caso, André Silva passe a jogar mais nas costas).

Ou seja, André Silva nasce quase em “contraciclo táctico”. Aparece quando já ninguém estava à espera que o nosso futebol gerasse um nº9 especialista, goleador puro, que todos vissem logo qualidade, mesmo ainda mal saído da casca de ovo.

Pode fazer grandes movimentos e muitos golos, que, neste momento, aos 20 anos, a vocação emocional que demonstra é a sua maior força. Entrou no “FC Porto mais difícil” dos últimos 30 anos e joga sem pestanejar (demonstrou-o mesmo no penoso final da época passada) e mostra os dentes aos adversários.

Está ainda, porém, apesar de tantos elogios, numa fase de “maturação da formação”, e é assim que deve ser enquadrado. Continuar a sua especialização.

Quando o vejo a jogar, vejo que muitas vezes... corre demais. Uma coisa é dar largura (descair na faixa para receber e fugir às marcações) e profundidade (cair nas costas dos defesas), outra é desgastar-se a vir buscar muito jogo atrás e a correr com a bola. Tem de se tornar cada vez mais um “animal futebolístico de área”. E, assim, virar de cabeça para o ar as certezas que o futebol português tinha criado.

Pode jogar em qualquer sistema, mas é irónico que, quando tal o ponta-de-lança português especialista para fazer sonhar surge, é quando, nos dois lados, seleção e FC Porto, se deixe o 4x3x3 com nº9 clássico como sistema preferencial.