Como, para um jogador avançar, a arma é dar… um passo atrás

09 de Março de 2017

1.

Poucos recordam que no inicio da carreira ao mais alto nível na seleção, Zidane enfrentou o debate sobre se devia jogar ele ou Djorkaeff, então visto como a grande estrela. Foi quando, jogando então no Bordeaux, Zidane converteu-se mais num médio puro do que num avançado, e foi assim que deu o primeiro passo para atingir o nível brilhante de jogo que o levaria até à Juventus.

Acredito que esta memória de como cresceu e explodiu o seu talento esteja presente agora quando, como treinador, tem de decidir sobre a melhor posição para encaixar os seus jogadores. Penso nisso vendo como Isco busca ganhar um lugar no onze do Real e como sinto Zidane ter vontade de lhe encontrar esse espaço. Não é fácil na geometria das peças do meio-campo (com Casemiro-Modric-Kroos) e do ataque (a fórmula BBC).

Onde estará a melhor forma para Isco evoluir? Pegando no exemplo-Zidane como jogador, imagino que a descoberta do espaço para Isco (e solidificação da expressão do talento) também estará dando um passo... para trás. Claro que funciona bem perto da área, nem deve perder nunca esse lado ofensivo mágico, mas vejo-o mais a crescer como um interior (num triângulo ou num losango, no meio ou vindo da esquerda).

Olho para ele, porém, sempre como médio (não como segundo avançado como se diverte mais) e jogando melhor quando começa... a jogar (pegar no jogo/bola) mais atrás. Isto que faz circunstancialmente tem de se tornar na base do seu futebol.

Zidane aprendeu a jogar futebol a nível táctico na Juventus, no futebol italiano, quando de fantástico solista passou a funcionar na perfeição a nível de equipa (até, já no Real, conseguir organizar o jogo pegando desde um flanco).

Ser um 10 clássico é algo que se leva dento. Não resulta só do lugar em que se coloca. Recordamos Zidane nessa casta, mas as posições onde jogou é que lhe deram esse cunho, pelo seu estilo. Dando um passo atrás no sistema táctico para ver melhor todo o jogo (e, no fundo, jogar melhor todo o jogo).

2.

O futebol atual aborve a dados tácticos adquiridos: um médio-defensivo, um interior misto que percorre todo o campo e recua-avança-recua, e outro, mais adiantado e ofensivo. No Real, estas últimas duas posições são de Modric e Kroos. A dúvida é saber se Zidane diz o mesmo aos dois ou se lhes diz coisas diferentes em termos de indicação de jogo.

Tentem responder: pensem nos jogos do Real. Quem é o nº8 e o nº10 entre Modric e Kroos? O natural, pensando na genética de cada um, é dizer Modric, mas no jogo não é isso que acontece. Quem aparece mais vezes adiantado, em terrenos ofensivos como um velho nº10, é Kroos. Por isso, acho que Zidane lhes dá indicações diferentes e quem dá o... passo atrás (para jogar melhor vendo melhor o jogo) é Modric.

Esta percepção vem dos seus tempos de jogador. Em muitos jogos, podia prescindir de Casemiro e dar o lugar a Isco à frente de Modric-Kroos, mas isso alteraria a criação de rotinas do pilar do triângulo.

3.

Um jogador que está a ser decisivo no Sevilha, sem quase ninguém reparar, é Iborra. Não está na casta dos craques, mas quando entra para jogar mais adiantado no meio-campo marca a diferença. Viu-se contra o Bétis, quando o onze estava asfixiado e entrou Iborra, passando a jogar desde trás (com Nzonzi mais posicional).

A equipa ganha um jogador que corre mais espaços com superior dimensão física e sabe depois baixar a bola à relva quando recebe. Dá também, subindo, a possibilidade da equipa meter a variante do passe mais longo (ou transição em profundidade), porque tem essa superior capacidade física que os seus outros tecnicistas rendilhados (como Nasri) não têm. para depois ganhar a bola. Mais do que mudar da defesa a “3” para a clássica a “4”, muda a visão do jogo desde trás como forma de perceber como o pode ganhar (entenda-se controlar/segurar com bola) mais na frente. Num ápice, a pressão alta adversária perde a força que asfixiava.