Um robot ou um rebelde? O que deve ser o melhor jogador?

06 de Outubro de 2014

Um robot ou um rebelde O que deve ser o melhor jogador

O Barcelona e a Epanha ensinaram, na última década, uma forma diferente de jogar futebol. Transformou o passe (e a sua técnica) na tática. Tão simples como isso. Como é também perceber que a operacionalização de uma ideia tão avançada, exige jogadores com essa dupla capacidade (futebol da cabeça aos pés) que é tão difícil de reproduzir como será a de criar pandas em cativeiro.

Muitas outras equipas quiseram repetir o mesmo em suas casas. Não funciona assim. Mas, às vezes, em jogadas (não em todo o jogo) irrompem na relva aparições desse outro futebol num estilo de admirável mundo novo.

Em Paris, o terceiro golo que o PSG marca ao Barcelona (onde Luiz Henrique depois da sua personalidade, procura construir a personalidade da... equipa) é quase um jogo de espelhos com o futebol do seu criador, na forma como Lucas e Pastore trocaram a bola, até que um passe em profundidade (isto é, entrando nas costas da defesa do Barça) serviu a subida do lateral Van der Wield que depois centrou com precisão para Matuidi rematar/encostar ao segundo poste. Um golo de manual.

Vejo e vibro com a beleza estética (técnica e tática) desse golo e recordo uma entrevista dada há alguns dias pelo novo treinador do Boca Juniores, antigo jogador até há pouco. Dizia ele, Rodolfo Arruabarrena, que odiava jogadores que, em campo, fossem como robots: “Como treinador, quero que as minhas equipas tenham ordem, mas isso não significa que no campo não decida o jogador. Odeio o jogador robot que só faz o que o treinador manda. Gosto da posse de bola, mas há que a ter para provocar danos no adversário, senão de nada serve”.

O descrito terceiro golo do PSG é a perfeição dessa ligação ordem-jogador-posse-objectividade. Em todo este processo, a base é a ideia, mas a chave são os jogadores, a jogar e a... pensar. Longe de estarem robotizados pela ordem, mas sim libertos pela... ordem de onde começam a jogar.

Cruzo esta ideia, com outra reflexão que pela mesma altura ouvia de Van Persie em Manchester, onde confrontado com as transformações de Van Gaal, disse, pura e simplesmente, que não sabia, nem tinha, como jogador, de saber nada de táctica, só tinha que fazer o que o treinador manda em campo. É difícil imaginar Van Persie, pelo que faz de mágico em campo, nesse registo mental, mas é assim que ele olha para o jogo e para o papel do jogador.

O (bom) futebol necessita, claro, de uma visão mais ampla dos jogadores.

Como Lucas-Pastore-Van der Wield e a mais básica (simples ou complexa) forma de construir futebol, os triângulos (isto é, fazer triangulações) explicaram naquela jogada que vinha desenhada do atelier do treino.

Uma boa forma individual de perceber como um jogador nunca pode ser um robot (e ser um elemento ordenado ao mesmo tempo) é seguir cada passo de Totti em campo. São tantos anos de futebol. São tantos anos de classe. Num relvado como numa passarela a desfilar Armani. O melhor do futebol italiano, como no golo, desenhado num toque-chapéu subtil, sobre Joe Hart, que saia para lhe encurtar o ângulo quando o modelo-jogador italiano se isolou no timing e ritmo de corrida certo frente à baliza do Manchester City. Nessa simples jogada sentiu-se a essência do futebol.

Por isso, quando no fim do jogo (e derrota) de Paris, ouvia falar Luiz Henrique, percebia o alcance das suas declarações: “não me preocupa perder, o que quero é recuperar sensações!”. O Barcelona tem problemas claros na sua defesa, mas o caminho para o resgate do seu melhor futebol está mais em redescobrir as forças do que em disfarçar as fraquezas.

Tudo tão estranho como natural.