Um treinador, e sua equipa, passeando pela brisa da noite

08 de Novembro de 2014

O futebol entrou num terreno frágil e perigoso. O preço do talento disparou e a maioria dos clubes vive longe de o poder alcançar. Mas, a cada época, os adeptos continuam a exigir caras novas e assim sucedem-se os chamados jogadores de consumo rápido. Aparecem e desaparecem à mesma velocidade. Criam-se falsos e fugazes craques, ou simples jogadores que parecem mais do que são, que logo a seguir são substituídos por outros igualmente superficiais. É o que exige o mercado. Mas não é isso que o futebol exige. O que uma equipa precisa é de quem a perceba.

O V. Guimarães arrancou o campeonato deslizando bom futebol. É natural que no seu decorrer tenha uma quebra. Nenhuma destas situações muda o cenário fundamental que compõe hoje a matéria de como é feita a sua equipa e jogadores. Mas têm que o provar jogo a jogo.

Rui Vitória personifica hoje o que deve ser (tem de ser) o treinador português de referencia abaixo da linha dos três grandes: um especialista em fazer crescer jogadores.

Ou seja, face à impossibilidade (devido ao sufoco financeiro) para a maioria desses clubes comprarem já jogadores de valor adquirido, é necessário ver para além do que os jogadores parecem valer e conseguir detectar neles possibilidades de crescimento que outros não conseguem. Depois, trabalhando com eles, entrar-lhes na cabeça e potenciar ao máximo as suas qualidades ou competências táticas para o jogo. Rui Vitória anda a fazer isto há três épocas consecutivas em Guimarães (com jogadores diferentes, quando ganha ou quando perdeu mais vezes na época passada).

Confesso que quando via na sua equipa B jogadores como Bernard (o melhor a pensar o jogo) Paulo Oliveira (agora no Sporting) ou até Tomané, entre outros, não lhes detetava este valor ou capacidade para integrados no onze principal, nas exigências da I Liga, fazerem o que fazem. Agora, vendo como eles jogam ao mais alto nível, é impossível fugir à definição desta ser, essencialmente, uma equipa de treinador no sentido construtivo do termo de potenciar jogadores.

Para muitos outros clubes, a especialização do treinador a escolher deve ser esta. Claro que, depois, existe o modelo de jogo, sistema e, a cada jogo, a estratégia, mas a base está lá atrás: saber fazer crescer jogadores. Até pontos que mais ninguém pensava. E, em alguns casos, arrisco dizer, nem eles próprios.

Hernâni é um caso diferente. O seu talento natural já se via quando jogava no Atlético. Era, porém, um talento excessivamente selvagem. Por isso, a sua primeira época em Guimarães foi passada longe do onze principal, porque ignorava a maior parte dos fundamentos do jogo, preferindo fazer de cada jogada um parque de diversões com bola. Ainda hoje, em muitos lances, não reste a essa tentação de mais um drible impossível, de fazer uma vírgula com a bola. Tem, porém, outra responsabilidade técnica no jogo. E é nesses momentos, mais do que nos dribles malabaristas, que Hernâni mostra que sabe... jogar.

Um treinador, e sua equipa, passeando pela brisa da noiteA qualidade de passe (com cruzamento preciso) depois de fazer a pausa na sua rebeldia veloz é quando o futebol de Hernâni fala melhor com o resto da equipa.

Não sei em que tecla dos jogadores Rui Vitória toca para a equipa e estes talentos não terem demasiadas oscilações (motivação máxima a jogar contra um grande e não cair num buraco motivacional no jogo seguinte contra uma equipa mais pequena) mas, no fundo, tudo isto se situa no quadro geral de potenciar talento. Dotar o grupo sempre de uma espécie de objetivo extra que transcenda cada simples jogo. Aceitar o futebol como um sentimento.