Um treinador passeando na brisa da tarde

20 de Dezembro de 2015

Despedir Mourinho nunca será como despedir um simples treinador. Uma crise de resultados numa equipa de Mourinho também nunca será como uma crise noutra equipa qualquer. É preciso que, dentro do clube (diretores para o despedir) e equipa (jogadores para não renderem), se passe algo muito mais profundo do que a visão exterior permite alcançar. As razões dividem-se em factores técnicos e de gestão interna.
No aspecto técnico, nunca entendi como era possível que este Chelsea jogasse com a ideia e jogo e distribuição dos jogadores (e suas características) que exibiu esta época em campo. Esta era a equipa de Mourinho que menos pressionava de todas que alguma vez orientou. Mal perdia a bola, não a procurava recuperar logo em zonas adiantadas (pressing alto) e preferia antes recuar para se organizar a defender, fechando espaços (a equipa, do campeonato, que mais permitia remates dentro da área). Não faz sentido.

Deixando o meio-campo (em 4x2x3x1) entregue à dupla Matic-Fabregas, o onze ficava quase sempre desequilibrado nessa hora de pressionar (transição defensiva) agravado pelo médio/segundo-avançado, Óscar, não ser por definição um jogador pressionante. A situação melhorava quando jogava nessa dupla Ramires (em vez de Fabregas) mas só num 4x3x3 com triângulo a meio-campo (Matic-Ramires-Fabregas) o onze resgatava os índices de pressão próximos duma clássica equipa de Mourinho.
E o que é uma clássica equipa de Mourinho? Olhem para o núcleo duro do meio-campo: No FC Porto, o trio Costinha-Manniche-Deco; No Chelsea (2004/05, 05/06) Makelelé-Tiago-Lampard (com Smertin a entrar) a quem se juntou, no ano seguinte, Essien; No Inter (2008/09 e 09/10) Cambiasso-Muntari-Viera-Stankovic mais o chefe Zanetti, um autêntico “exército”. No Real dos 100 pontos (11/12) Xabi Alonso-Lass Diarra-Khedira.
Ora o atual Chelsea não tem jogadores/médios deste tipo/calibre a pressionar e jogar (outras posições transmitem a mesma ideia). O núcleo mais “soft” do titulo em 2014/15 é o mesmo desta época. O que mais intriga é mudança de em vez de avançar para pressionar, passar a recuar para organizar, deixando de sufocar adversários.

Extra-relvado (para além da “soap” com a equipa médica) a composição/gestão do plantel acumulou equívocos. Desde a dispensa de Schurrle à contratação de Cuadrado, á dispensa de Lukaku e aquisição de Falcão, o falhanço na contratação de Stones, a quebra de forma de Ivanovic (o peso da idade) e, noutro prisma, o esvaziar de Mikel, que podia fazer crescer o peso do meio-campo.
Nas relações, no inicio protege os jogadores e atrai toda a pressão/criticas sobre si mas quando os resultados entram num ciclo negativo mais prolongado, não hesita em expor os jogadores, os mais fortes mesmo. Com isso, porém, apenas agrava a perda do controlo da situação e balneário. A situação no Chelsea entrara já nesta segunda fase mais perigosa. Após caírem as “cabeças” de Terry e Diego Costa, a equipa ficara totalmente exposta.
Em qualquer projeto que passou, Mourinho controlou sempre a sua saída, como que premindo um botão de autodestruição com efeito deflagrado até se consumar no momento certo. No Porto, Inter ou Real. Este foi o primeiro caso em que não controlou essa autodestruição estratégica que fazia quando via que, de uma forma ou outra, “estava tudo feito” naquele clube e já pensava em ganhar noutro.
O seu futuro, porém, não tem nuvens cinzentas. Se vai voltar a ganhar? Sem dúvida, está no seu código especial. O importante é “só” ele perceber porque falhou o seu projeto de jogo esta época. Debater futebol puro.