Uma boa equipa “nunca mente”

17 de Junho de 2016

Portugal-Islândia. Existem diferentes formas de estar num jogo.

Esta seleção islandesa tem "sinceridade" em todos os seus processos de jogo.

Não cede a tentações de mudar pela estratégia e ser "outra equipa" para se colocar mais compacta defensivamente sem que o adversário a force a essa opção/posicionamento. Essa identidade deu-lhe uma boa entrada ofensiva no jogo, mas rapidamente deixou de lhe dar uma presença táctica mais controladora para o meio-campo. 

Portugal percebeu todo esse cenário e bastou puxar André Gomes para a meia-direita para passar a mandar nos caminhos da bola, do passe e da relação entre a faixa e a zona central, como o 4x4x2 clássico pede a pelo menos um "falso ala".Foi apenas com essa nuance que  a "sinceridade islandesa" tremeu durante o jogo. Mesmo procurando mais vezes a profundidade do que é estilisticamente natural no nosso jogo, quando a seleção meteu a troca de bola de corte lusitano entre os médios (Moutinho-João Mário-André Gomes) conseguiu  passar a jogar o "seu jogo". 

Um jogo de toque e desmarcarão (procurando espaços vazios de recepção em antecipação) em que André Gomes foi o factor decisivo (26 passes e todos os cortes ganhos), quer no movimento colectivo (combinando com a subida do lateral, o rato-Rafael Guerreiro), quer na construção do passe para o golo de Nani, que quebrou o pouco compacto gelo islandês.eurologo

A falta de ideias 

O jogo não mudou na segunda parte. A fórmula islandesa entrou com a mesma sinceridade táctica, em largura, mas desta vez, no tempo que teve, encontrou e desenhou a equação cruzamento-golo (Gudmundsson-Bjarnason) em poucos instantes. Fez o empate através da relação mais simples entre bola e espaço, sem ver a posse como indispensável. 

O desafio táctico que se colocava a Portugal era desmontar a personalidade islandesa, fazê-la dançar com a nossa técnica, habilidade e passes. É difícil ganharmos sem ser através do nosso estilo. O gelo islandês parecia tornar-se mais compacto com o decorrer do tempo, mas mais recuado. O factor-André Gomes sentia o desgaste e provocava os mesmos sintomas no nosso jogo, que pede a rotação do motor Moutinho, nesta fase a diesel. A entrada de Renato Sanches tinha de dar essa profundidade rotativa ao nosso corredor central. 

Quaresma, mesmo com a "picada"  na coxa, muda a versatilidade do 4x4x2, dando-lhe um ala para fazer dançar o bloco mais frio que aguentava no músculo de Gunnarsson e Bjarnason. O onze islandês não perdeu a sua "sinceridade táctica" até ao fim. Expressou-a mais à frente no início. Terminou aguentando-a atrás. Só na primeira parte, porém, a usou contra a inteligência. Na segunda, usou-a essencialmente contra o esforço. 

O trilho do Europeu continua aberto, mas no futebol há sempre que respeitar as equipas que "nunca mentem". Como esta Islândia.