Uma cambalhota e o negócio do costume

03 de Junho de 2012

Uma cambalhota e o negócio do costume

Quando em janeiro passado a Zâmbia derrotou o Sudão por 3-0 na sua caminhada para a conquista da CAN, poucos diriam que no reencontro entre estas duas equipas, os sudaneses levariam a melhor. Mas, no entanto, foi isso mesmo que aconteceu. Não passaram mais de cinco meses, e os detentores do título africano sofreram uma derrota por 0-2 na estreia das qualificações para o Mundial. Enquanto quem é mais dado a superstições poderá ver neste fato uma malapata zambiana com a maior competição do futebol (a Zâmbia nunca atingiu uma fase final), razões mais profundas existem para justificar este resultado.

Uma cambalhota e o negócio do costumeEssas razões, curiosamente, não se localizam na Zâmbia, que apresentou praticamente o mesmo onze com que venceu a CAN. Estão sim na evolução do futebol sudanês. Muito longe daquilo que tendemos a aceitar como o perfume do futebol africano, a seleção do Sudão apresenta um conjunto onde o rigor tático e a força física dos seus jogadores se impõe. Num relvado escasso do estádio do Al Hilal, em Omdurman (arredores de Cartum), um onze dominado por jogadores do Al Hilal e do Al Merreikh (duas das três equipas sudanesas ainda em prova na Taça da Confederação) foi muito mais forte do que os zambianos.

O primeiro golo, marcado por Muhannad Tahir com um forte remate de fora da área (não confundir com o outro Tahir que brilhou na CAN), foi seguido por uma cambalhota que bem poderá exemplificar o que se passou no relvado. Uma passagem de testemunho entre quem brilhou na CAN e quem quer brilhar no Mundial.

Desilusão em Luanda

Em Luanda, grandes perspetivas para o que poderia acontecer na estreia oficial de Romeu Filemon à frente da equipa dos Palancas Negras. A vitória frente à Académica e o empate a zero frente à Macedónia prometiam o melhor para esta renovada equipa angolana. No entanto, a desilusão voltou a apoderar-se dos cerca de 50 mil adeptos que ocupavam as bancadas do Estádio 11 de novembro.

Uma cambalhota e o negócio do costumeNo onze titular, apenas quatro jogadores mantinham a posição que tinham na CAN. Dany no setor central da defesa, Djalma, Mateus e Manucho Gonçalves na frente de ataque. Os angolanos até começaram melhor, com Djalma a marcar aos 7 minutos, mas o que se pode assistir durante todo o resto da partida foi uma seleção ugandesa mais forte e mais decidida a pontuar do que os Palancas a vencer.

As próprias trocas de Filemon foram no sentido de fechar os caminhos para a baliza angolana, deixando que o Uganda continuasse a aproximar-se com perigo da baliza defendida por Neblú. O golo acabaria por acontecer ao cair do pano, marcado por Okwi, um jovem de apenas 19 anos. Com este resultado, Angola começa mal o apuramento, num grupo onde terá que ultrapassar o Senegal para sonhar com o Mundial.

Uma tarefa nada fácil para os Palancas Negras.

A lenda dos Mambas

A complicada missão de Moçambique nesta fase de qualificação teve estreia num estádio vazio. Frente ao favorito Egito, os Mambas evidenciaram um futebol apostado em aproveitar falhas adversárias. O problema é que o Egito não falhou. Mesmo sem competição a nível nacional, a seleção treinada pelo americano Bob Bradley continua a dar cartas a nível continental. Os jogadores têm beneficiado de treino e jogos de preparação acima do que é normal para uma seleção, com regressos aos clubes apenas para os jogos das competições continentais.

Na baliza de Moçambique, uma cara conhecida dos egípcios. João Kapango, 36 anos, seis deles ao serviço da equipa do Tersana. Kapango continua a ser a maior referência nas balizas moçambicanas. Lendário pela sua presença exótica na baliza, o experiente guarda-redes viu a sua titularidade ameaçada pela chamada do “português” Ricardo Campos ao estágio da seleção. O guarda-redes do Caldas marcou presença junto com os Mambas, mas acabou fora da convocatória final de Gert Engels, depois de alguma polémica na imprensa local. Pinto, guarda-redes do Ferroviário de Maputo, sentou-se no banco e parece ser o favorito à sucessão da lenda.

Kapango, no entanto, continua a não ter a sorte do seu lado em jogos internacionais. Depois de se ter dado a conhecer ao mundo na CAN 2010, onde demonstrou todos os pontos positivos e negativos do seu exotismo, o guardião voltou a estar em destaque nesta jornada. Por um lado, fez uma sucessão de boas defesas que permitiu a Moçambique sair apenas vergada a uma derrota por 0-2. Mas por outro voltou a oferecer uma imagem para os apanhados do futebol, quando no segundo golo a bola ressaltou do poste para as suas costas, acabando, neste pingue-pongue, por entrar na baliza.

Como em tudo na vida, não basta ser-se o melhor. É também preciso parecer-se o melhor.

Luís Cristóvão escreve sobre futebol em diversos sites. Pode seguir o seu trabalho no blogue Gazeta dos Desportos.