UMA CERTA ÍDEIA DE FUTEBOL FRANCÊS

04 de Novembro de 2000

Recuando no tempo e olhando a história francesa, é tentador parar no ano de 1958 e assistir á chegada ao poder de um homem que dizia trazer consigo uma “certa ideia de França”, capaz de forma destemida e altiva, devolver ao “País de Napoleão” a sua aura mundialista. Viviam-se então os primeiros dias da presidência do General Charles de Gaulle. No mesmo ano, porém, outro homem, dentro de um rectângulo verde, honrava a vocação expansionista gaulesa: Raymond Kopa, então eleito o melhor jogador europeu da época, numa altura em que já passeava a sua classe no Real Madrid. Seria por pouco tempo, no entanto, que ficaria preso aos encantos madrilenos. Apenas dois anos depois, nostálgico do aconchego da pátria, regressava, ganhador, ao clube que então tornava temível e respeitado o futebol francês: o Stade Reims, mito da bola gaulesa dos anos 50, orientado pelo mestre Albert Batteux, conquistador de 6 títulos nacionais, 2 Taças de França, para além de, por duas vezes, ter sido finalista vencido da Taça dos Campeões Europeus (56 e 59).

Uma era de glória desenhada por uma geração que liderada pelo “pequeno Napoleão da bola”, Kopa, contava, entre outros, com homens como Jonquet, o goleador Fontaine e os dois Roger, Marche e Piantonni. Depois da conquista em 62 do seu último título nacional, o “Grande Reims”, finda a “belle époque” de Kopa, entrou em declínio. Em 77 faria a sua última aparição nos grandes palcos como finalista da Taça de França, mas, em progressiva agonia, cairia na II Divisão. Mergulhado numa profunda crise, financeira, social e desportiva o clube resvalou até á IV Divisão e tornou-se amador, como obriga a Lei gaulesa. No inicio dos anos 90, o clube carregava consigo uma imagem fantasmagórica. Financeiramente arruinado, os seus trofeus foram a hasta pública e, completamente falido, foi obrigado a mudar o seu nome para “Reims Stade Champagne”.

Perturbado com a queda do mito, Alan Afflelou, devoto adepto da grande equipa do passado, mito dos seus tempo de menino, resolveu comprar todas as Taças e medalhas levadas á praça, com a promessa de as devolver ao clube quando um novo projecto credível surgi-se. Foi o que sucedeu no crepúsculo do século. Impulsionado por Cristophe Chenut, um jovem publicitário de Paris, o clube iniciou a sua longa viagem de regresso aos grandes palcos, recuperando o seu nome de origem. Hoje, orientado por um homem de ascendência portuguesa, que nos anos 80 jogou no Paris St.Germain e passou uma época pelo Sporting de Braga, Abreu, realiza um campeonato tranquilo na III Divisão e voltou a encher de esperanças o velhinho Auguste-Delaune, outrora sala de visitas das melhores famílias futebolísticas. Esta viagem no “comboio fantasma” não é, no entanto, exclusivo, no futebol francês, do Stade de Reims. Há quem fale numa maldição que ataca os campeões que procuram estender fora de fronteiras as suas conquistas internas. Apesar da origem francesa das competições europeias, os onze gauleses mantiveram-se, ironicamente, até meados dos anos 90, á margem das suas conquistas. No entanto, ao longo dos tempos, ciclicamente, souberam gerar algumas sedutoras equipas que cativaram os olhares do futebol europeu.

ST. ETTIENE: OS “ANOS VERDES”

UMA CERTA ÍDEIA DE FUTEBOL FRANCÊSNos anos 70, a epopeia europeia de “Les Verts” despertou as paixões escondidas no futebol gaulês. A lenda do “gigante verde” teve inicio tal como o “Grande Reims”, no rasgo de Batteux. Foi ele que chegado ao clube nos anos 60 semeou as bases do sucesso, conquistou 3 campeonatos, e lançou o homem que mais tarde iria dar asas ao sonho da cidade do carvão: Robert Herbin, ”Le Spinx”, o homem da enorme cabeleira ruiva que, entre jogador e treinador deu ao clube 8 títulos de campeão e outras tantas Taças de França. O seu sonho europeu começou em 72 quando substituiu Batteux no “banco” e teve o seu apogeu em 76, com a final da Taça dos Campeões dramaticamente perdida para o Bayern Munique.

Para a história ficava, porém, uma equipa que pela sua leveza artística, se tornara a “noiva de França”, apaixonada pelo glamour de Jean Michel Larqué e Hervé Ravelli, líderes de um onze que tirando os dois estrangeiros, entre eles “keeper” jugoslavo Curkovic, havido sido todo feito no centro de formação do clube, onde haviam chegado com apenas 15 ou 16 anos. O final dos anos 70 e inicio dos 80, marcou o último fôlego verde. Liderado por uma jovem promessa chamada Michel Platini, que chegara ao clube em 79 vindo do Nice, o St.Ettiene construiu a equipa que com estrelas como Rocheteau, Battiston, o holandês Rep e o gigante do Mali, Keita, deu, em 84, o 10º e último título da sua história.

Apesar de, em 82, Platini ter saído para Itália, o St.Ettiene estava longe de imaginar o pesadelo que se aproximava. Em 84 caiu na II Divisão e, apesar do regresso em 86 nunca mais voltaria a ser o mesmo de outrora. Em 98 o clube esteve a um passo do abismo. Agonizante na IIª Divisão teve que esperar por resultados de terceiros para saber se descia ou não á IIIª Divisão. O fantasma de Reims pairava no ar. Quase por milagre o clube aguentou-se na divisão secundária e impulsionada pelo novo presidente Bompard que substituiu o velho Roger Roché o clube pode calmamente reconstruir o futuro. Hoje voltou á divisão principal, mas na memória de Bompard estará para sempre aquele fim de tarde em 98 quando, no hotel, antes do decisivo último jogo, se preparava para fazer uma comunicação de incentivo aos jogadores. Depois de pedir uma sala para o efeito, preparava-se para nela entrar quando reparou numa placa por cima da porta de entrada: “Sala Stade de Reims”. Num ápice, voltou-se para trás, não deixou ninguém lá por os pés, deu a palestra no “hall”, e, simbolicamente ou não, virou costas á maldição. A “terceira vida” do St.Etienne acabara de se iniciar...

MARSELHA E BORDEAUX: DO CEÚ AO INFERNO

UMA CERTA ÍDEIA DE FUTEBOL FRANCÊSDepois da “travessia no deserto” dos anos 70, os anos 80 e inicio dos 90 ficaram marcados pela “guerra” implacável então travada entre dois homens pelo domínio do futebol francês: Bernard Tapie, presidente do Marselha, e Claude Bez, presidente do Bordeaux. Ambos ambicionavam títulos, glória, dinheiro e a Europa a seus pés. O primeiro impulso bélico foi dado pelo presidente “Cowboy” do clube dos vinhos. Corria o ano de 1984, quando embalado pela conquista do Euro-84 por parte da selecção francesa, Bez veio a Lisboa para contratar a então maior estrela lusa, Chalana. O virtuoso “canhoto do Barreiro” seria apenas mais uma figura entre o onze dourado que sonhava construir, onde também estavam Tigana, Battiston, Lacombe, Giresse, entre outros. Treinados por Aimê Jacquet, o clube cedo dominou o futebol francês, conquistando três títulos da Liga (84, 85 e 87).

A aventura europeia seria, no entanto, outra história. O máximo que a equipa conseguiu foi a meia final da Taça dos Campeões em 85, numa altura em que Tapie já começava a acender a fogueira de paixões que em breve tornaria Marselha na “cidade francesa do futebol” como ficou internacionalmente conhecida. Em 88, depois de uma época onde apesar de reunir craques como Giresse, resgatado ao Bordeaux, Pelé, Papin e Foster, terminou num modesto 6ºlugar, Tapie embarcou a bordo do seu luxuoso iate “Phocéa” e, reunindo-se dos mais influentes empresários da bola, escudado na sua eleição como deputado socialista, sentiu que estava na altura exacta para atacar o “castelo” de Bez, e congeminou uma equipa de estrelas que, em poucos anos, reuniu monstros como Papin, Cantona, Francescoli, Sauzée, Voller, Mozer, Waddle, Tigana, outro antigo craque de Bez, Abedi Pelé, Desaily, Deschamps e muitos outros. Para treinador foi buscar Beckenbauer, campeão do mundo á época, que passou a formar equipa técnica com o “Feiticeiro belga” Raymond Goethals.

Muitos pressentiram que por trás das palavras do presidente do Marselha estava, desde o inicio, uma clara intenção de estar disposto a tudo para o domínio do futebol francês e europeu. Em 91 a guerra parecia ganha. Cercado por processos fiscais, Bez torna-se cada vez mais conhecido pelo seus processos judiciais do que pelos sucessos desportivos até que o seu Bordeaux, por entre acusações de corrupção e fraude fiscal, é relegado para a IIª Divisão. Mas no estar “disposto a tudo” de Tapie, estavam também uma série de processos menos claros que pouco mais de um par de anos depois, levariam o clube á IIª Divisão, na sequência da Federação francesa lhes ter retirado em 93 o seu último titulo de campeão nacional devido ao famoso escândalo de corrupção, poucos meses depois de finalmente ter conseguido para França a sua primeira vitória numa prova europeia. O destino final destas duas truculentas personagens do “football” gaulês seria idêntico: a ruína financeira dos clubes, complicados processos judiciais seguidos de pesadas penas de prisão efectiva, acusações de fraude fiscal e os dois prestigiados emblemas a descerem administrativamente de divisão. O Bordeaux em 91 e o Marselha em 95.

A “maldição dos campeões” voltara a atacar. Exorcizados os fantasmas de Bez e Tapie, ambos os clubes regressaram ao topo do futebol gaulês. Em 99, no mesmo ano em que, Bez viria a falecer vitima de um enfarte, o Bordeaux reconquistou o título que disputou até á última jornada com o próprio Marselha, agora regido por outro homem de negócios, Robert Louis Dreyfus, patrão da adidas. Esta época, porém, o clube de Vélodrome, com o suster do investimento, voltou a fazer sofrer os seus adeptos e luta de novo por não descer de divisão. Todos estes clubes, em diferentes momentos do tempo, traduziram, cada um deles “uma certa ideia de futebol francês”. Dos remotos tempos do Stade Reims aos complicados afaires de Monsiuer Tapie, todos fizeram voar o ego gaulês.

NA SOMBRA DOS GIGANTES: UMA LIGA DE SURPRESAS

Com sete vencedores nas últimas sete edições, Marselha (93), Paris St.Germain (94), Nantes (95), Auxerre (96), Mónaco (97), Lens (98) e Bordeaux (99), a Liga Francesa tornou-se numa das mais competitivas da Europa. Historicamente atrás dos milionários campeonatos italiano, inglês e espanhol, o futebol francês de clubes viveu sempre na “sombra” dos sucessos da sua selecção. No entanto, apesar dessa menor projecção internacional, a sua Liga gerou, ao longo dos anos, sedutoras equipas, em cuja técnica latina, apreendida desde cedo nos centros de formação que todos os clubes profissionais são obrigados a possuir, foi sempre ponto comum. Após o Mundial- 98, “o campeonato dos campeões do mundo” passou a ser olhado com maior atenção pelo universo do futebol. O título mundial não travou, no entanto, a saída para o estrangeiro dos seus melhores jogadores. Incapazes de competir com os loucos investimentos italianos ou ingleses, a França encetou uma profunda remodelação do seu futebol, reconstruindo-lhe as bases, desportivas e financeiras, impulsionada com a dinâmica criada pelo sucesso orgânico do evento de 98, gerando uma Liga atraente, jogada em Estádios modernos e confortáveis, em cujos relvados as equipas exibem maioritariamente um futebol técnico e aberto, esquematizado nos clássicos 4-4-2 e 4-3-3 europeus. As assistências continuam, porém, longe da média das grandes ligas europeias. Em 98/99 a média de público foi de 19 807 espectadores por jogo, bastante menos que os 32 833, média da Bundesliga ( a melhor da Europa) e longe dos 30 703 do Scudetto.

MÓNACO: FUTEBOL, TÍTULO E PRINCESAS

UMA CERTA ÍDEIA DE FUTEBOL FRANCÊSO onze que acaricia o titulo do ano 2000 joga com o terno roncar dos motores dos jaguares como ruído de fundo: o AS Mónaco, a equipa da Corte de Rainier que nos últimos 20 anos já dera outros atraentes onzes ao principado do jet-set, entre elas o idolatrado conjunto campeão de 82, com Ettori, Amoros, Bellone, antecedente do gloriosa equipa de 88, orientada então pelo jovem Wenger, em inicio de carreira, baseada nos experientes Battiston e Amoros e no rasgo de dois ingleses, Hoddle e Hateley. Recentemente, em 97, sob as ordens de Tigana, sempre de palito na boca, os heróis do título ainda permanecem no auge, entre os quais Benarbia, Henry, Ikpeba e, também como campeões em 2000, o goleador Trezeguet e o guarda redes voador Barthez. Fiel á sua vocação de lançar jovens técnicos ganhadores, o Mónaco versão 99/2000, voltou a honrar a tradição: o novo alquimista chama-se Claude Puel, 39 anos, antigo defesa do Mónaco, por quem fez 488 jogos na I Divisão, entre 79 e 96. A impulsionar o sucesso de Puel a magia do muñeco Gallardo, um argentino que inventa jogadas de golo e o faro de baliza do italiano Simone, os dois estrangeiros estrelas, á frente de Lamouchi e Giuly, numa equipa que soube aproveitar a Lei-Bosmam para uma astuta prospecção além-fronteiras privilegiando os jovens talentos.

Foi dentro dessa política de recrutamento que chegaram ao clube Contreras, defesa chileno, 21 anos, Marquez, central mexicano, 20 anos, Rise, médio norueguês Rise, 19 anos, Farnerud, médio sueco, 19 anos, N`Diaye, avançado do Senegal, 20 anos, Dado Prso, atacante croata já naturalizado francês, 25 anos, e o nosso Costinha, médio de 25 anos, que há dois anos atrás jogava incógnito no Nacional da Madeira.

OS ÚLTIMOS CINCO ANOS: A CONSAGRAÇÃO DOS CENTROS DE FORMAÇÃO

Depois do titulo do PSG das estrelas, treinado por Artur Jorge, em 94, os cinco anos seguintes foram os da consagração dos míticos centros de formação franceses. Tirando Tigana, todos os outros treinadores campeões nesse período, passaram primeiros vários anos nos centros de formação, as escolas do futebol francês, que não se limita a formar jogadores, mas que também forma treinadores, onde emergem o eterno Guy Roux, “o Druida” Leclerq, o velho “Coco” Suadeuau e um jovem sonhador chamado Elip Baup. Depois das diabruras de Bez, o título conquistado pelo Bordeaux em 99, consagrou a renovada imagem dos girondinos. No leme dos novos campeões, outro treinador da nova vaga: Elip Baup, colega de curso de Wenger, que vivia com a mágoa de aos 19 anos, quando estava no Toulose, um acidente de viação o ter obrigado a desistir do seu sozinho de se tornar jogador profissional de futebol. Tomou conta do Bordeaux após a demissão do credenciado Guy Stephan, de quem era adjunto, em 98. Antes ficara conhecido como “um homem do St-Ettienne”, onde de 90 a 94, fora técnico dos centros de formação, das reservas e, por fim, da equipa principal. Uma subida a pulso coroada com os golos de Wiltord e Laslandes. Em 98, o fenómeno de uma cidade com apenas 35 mil habitantes todas as semanas encher um Estádio com 42 mil pessoas: o acolhedor Félix Bolaert, casa do Lens, um campeão surpresa. De novo no “banco”, um técnico saído dos centro de formação do clube: Daniel Leclerq, então a estrear-se á frente da equipa principal. Uma estreia fantástica, com uma equipa onde brilhavam Smicer, Drobjack e Ziani, que o fez passar a ser conhecido como “O Druida”.

UMA CERTA ÍDEIA DE FUTEBOL FRANCÊSEm 96, o titulo mais apreciado comunidade futebolística internacional. Por fim, o atingir do apogeu por parte de um carismático treinador que chegado ao Auxerre em 61, estava há 36 anos no clube: Guy Roux. Durante décadas nos escalões de formação gerou talentos como Cantona, Boli, Ferreri, Cocard, etc. Em 96 chegou ao titulo com jogadores como Lamouchi, Martins e o elegante “líbero” Blanc, também lapidados no clube. Na alvorada do Séc.XXI, com 62 anos, continua dono do mesmo estilo, sempre na defesa das causas dos treinadores franceses. Depois de quase 40 anos de alma e coração a pisar todos os dias a relva AbbéDeschamps, Guy Roux tornou-se o Auxerre com duas pernas.

Um homem que é um clube, um clube que é um homem. O ano de 95 marca, por fim, a coroação de outro “rato da formação”: “Coco” Suaudeau, patriarca de Nantes onde fez toda a careira como jogador e treinador. O seu percurso prova que o futebol é um eterno recomeçar. Depois de em 1981 ter deixado de ser responsável pelo centro de formação para passar a orientar a equipa principal que levou ao título em 83, o onze de Halilhodzic, e 95, num equipa que lançou para o estrelato jogadores como Karembu, Loko, Makelelé, Pedros e N`Doram. A época passada regressou ás origens, voltando a gerir a formação de La Beaujoire.