Uma garrafa de água numa ilha de futebol

11 de Maio de 2016

Decidir o titulo numa “ilha de futebol”. Não defendo a teoria simplista de que será a “questão física” a decidir este campeonato mas olhando para o atual estado exibicional da equipa do Benfica (jogo após jogo) é impossível fugir a esse factor.

Só o poder da sua organização lhe tem permitido ser tão competitiva a “jogar cansada”. Mas isso também se aprende, treina, cultiva. Para além da motivação mental que faz sempre resistir um pouco mais, a fórmula realista de viver o jogo de Rui Vitória tem dado à equipa a consistência táctica: “jogo posicional” a atacar cruzado com o equilíbrio de cobertura “atrás da linha da bola” a defender.
Por cada canto contra ou livre lateral perigoso, Rui Vitória pede sempre uma garrafa de água que tem de ter na mão enquanto o adversário bate a bola para a área. É a sua “forma mental” de viver o jogo. Ele sabe que não é por ter a garrafa de água na mão que a bola não vai entrar ou a defesa faz o corte, mas na sua cabeça isso ajuda-o.

Como, em campo, a cabeça faz a táctica da equipa andar ou manter-se sempre organizada. Mesmo quando o jogo provoca dúvidas. Como Rui Vitória sente se também deve ter a garrafa na mão se for no caso dum livre quase do meio-campo mas que mesmo assim vá bombear a bola para dentro da área.

Jardel-Fejsa-Renato Sanches-Jonas são a “linha vertical” que cruza o campo de uma área à outra. Na fase decisiva de crescimento táctico da equipa, um jogador de movimentação inteligente faixa-centro-faixa, Pizzi, permitiu a definição de um sistema táctico até então descaracterizado. Equilibrou posicionalmente a equipa. Vantagens de um “modo de pensar” que o monstro físico, condicionando esse jogador, ameaçou nos últimos jogos.

maritimo

2.
A Madeira sempre foi como uma “região futebolística autónoma”. Na dimensão dos clubes, incentivos financeiros, estilo de jogo, até no clima que as “equipas do continente” sentem ao chegar e pisar os seus relvados. Enquanto na Choupana muitas vezes o nevoeiro e o frio aperta, no Funchal muitas equipas quando lá chegam sobretudo nos jogos á tarde, parecem tocadas no corpo pela mosca tsé-tsé.
Há muito que penso que devia ser possível identificar e criar um estilo de jogador madeirense. Não seria, claro, tirado do molde-Ronaldo, mas sim destas idiossincrasias climáticas que, como em todos o Planeta do Futebol, influenciam que o tipo de jogador mude em função do habitat onde nasce e cresce. Um jogador de traço mais técnico, “quente”, mas capaz de se aumentar de intensidade quando o jogo pedisse sem, porém, nunca se tornar uma “escavadora”.

Os novos tempos babilónicos retiraram muito desse espaço típico estilístico de criação inata às equipas madeirenses. O Nacional é uma realidade que cresceu como espécie de “contrapoder” ao histórico domínio do Marítimo. Ganhou um espaço próprio. O Marítimo constrói sempre boas equipas, mas (para além dos cortes orçamentais que sofreu) não conseguiu criar uma verdadeira identidade que se mantenha através dos anos. Ou seja, muda muito época após época. Nota-se até no perfil dos treinadores (de Lazaroni, Pedro Martins, Ivo Vieira a Nelo Vingada) existem poucos pontos de contacto. Cada um pensa o clube e o jogo à sua maneira. Terá agora um novo Estádio que pelo ambiente que cria pode “ganhar pontos”. É a altura ideal de promover essa política de identidade duradoura na equipa.