Uma Questão de Trincos

09 de Novembro de 2001

Historicamente, a adopção clara por um jogador plantado na frente da defesa, sucedeu, pela primeira vez, na América do Sul, em face da fraqueza dos centrais que ao contrário dos duros e fortes europeus eram, salvo excepções, mais frágeis e, por isso, mais vulneráveis ás entradas dos avançados. Tudo começou, diz-se, quando Didi, no Mundial-62, resolveu, por si, jogar na frente dos zagueiros Mauro e Zózimo, alegando que eles sozinhos não tinham condições para parar Puskas e Peiró, avançados da Espanha. Chamaram-lhe, por isso, cabeça de área. Tudo isto sucedeu em plena era do 4-2-4, então sistema também reinante na Europa, onde surgiam os chamados médios de cobertura. De cariz defensivo, não estavam proibidos de descer no terreno quando a equipa atacava e, por isso, com o aumento da sua resistência, funções tácticas e qualidades técnicas, ganharam o nome de carregadores de piano. O termo trinco só surge no inicio dos anos 80, quando as tendências defensivas assaltaram o futebol.

Seria no Brasil que o posto conservaria maior nobreza: Gerson e Clodoaldo, anos 70, Falcão e Alemão, anos 80. Hoje o segredo está em roubar a bola ao adversário, aproveitar o seus erros e apanhá-lo em contra-pé. O local de gestação desta estratégia é entre a entrada da área e a linha do meio-campo. É nesse espaço de terreno armadilhado que vivem os novos líderes do presente. É o caso da França de Zidane campeã mundial e europeia com 2 e por vezes 3 jogadores – Petit, Vieira e o retirado capitão Deschamps- nesse espaço de terreno, mas nem por isso com três trincos no sentido estrito do termo. O que sucede é que estes homens são jogadores excepcionais tanto em rendimento atlético como em capacidade de execução. Mais do que fechar a defesa, estes médios asseguram o balanço do onze no espaço entre os defesas e os avançados. Nessa zona descobriu a Europa, no passado e no presente, personagens como Tardelli, Fernandez, Bryan Robson, Rijkard, Paulo Sousa, Guardiola e muitos outros. Todos trincos com batuta de maestro.

TÁCTICAS: Os trincos nas grandes equipas

Uma Questão de TrincosVejamos como as grandes equipas europeias ocupam hoje essa zona em frente da defesa, o habitat natural dos trincos: No Manchester United, Fergusson joga com dois trincos modernos, ambos protótipo do futebolista moderno, trabalhador, sério, muito compenetrado, sem grandes rasgos e que carrega aos ombros toda a orquestra do onze, bombo e violino incluídos. São eles o duro Keane e La Brujita Véron, útil sobretudo nos jogos europeus. No 3-5-2 da Roma, Capello actua sempre com 2 ou 3 jogadores de suporte defensivo a meio campo: Emerson, médio de contenção, Tomassi, decisivo na verticalização do jogo e, em outros casos, Lima, sob a esquerda ou Assunção fazendo a linha á frente da defesa. No 4-2-3-1 do Real Madrid, Del Bosque prefere dois trincos criativos que fazem girar a bola, lateralizando o jogo para os flancos, tarefa onde Makelele é a principal referência. No mesmo espaço move-se Helguera, elegante e com grande carácter no ataque á chamada segunda bola., O 4-3-1-2 do Barcelona de Reachax tem dupla personalidade.

No leme á frente dos centrais, Xavi, o clássico trinco organizador de jogo, filho espiritual de Guardila, a referência máxima do sector em Espanha. A seu lado, devia jogar Rochemback, mas lesionado, quem encaixa actualmente nesse espaço é Cocu, tacticamente muito evoluído, de escola holandesa, um relógio de cuco que marca o ritmo da equipa na recuperação da bola. No granítico Bayern Munique, Hitzfeld, em 3-5-2, não prescinde de dois médios de cobertura: Thiam e Effenberg, um rolo compressor que sobe muitas vezes no terreno. No 4-4-2 da Juve de Lippi, Davids é o carregador de piano. Pouco imaginativo mas muito combatitivo fica muita vezes com o piano na mão sem saber o que fazer com ele, é quando surge, no mesmo espaço, Tachinardi, mais lúcido, para lançar o ataque, mas cujo protagonismo resulta sobretudo de, sem Zidane, a Juve jogar sem um real nº10, um playmaker que ilumine a equipa. É esta a sua grande debilidade táctica nesta época.