“Vagabundo tático”: Até que ponto pode o jogador ser?

28 de Outubro de 2014

Em quantas posições pode um jogador jogar? Pode jogar em todas, ou quase, dirão. É uma questão que encaixa bem no momento atual de Talisca e sua vagabundagem pelo onze do Benfica.

Para Jesus ele pode ser avançado, segundo avançado, ala estilo 11 ou 8. Numa visão ampla, todas a posições a partir do pivot, o 6. Em tese, pode, de facto, jogar em todas, mas pensando naquilo que ele é hoje como jogador, será essa forma (como espécie de “vagabundo posicional”) a melhor forma de o fazer crescer?

Pergunto porque é, claramente, um jogador em fase de aprendizagem dos fundamentos do jogo. Tem o que a natureza lhe deu fisicamente. Com isso, sendo rápido, pode fazer bem essas posições, sobretudo num 4x2x3x1 ou 4x3x3 em que ele sai desde trás como 8. Noutra posição, a 6, sente-se menos essa necessidade do jogador ser rápido (fisicamente falando) e até pode ser algo lento. O essencial é o sentido posicional. Noutras posições, o essencial é a movimentação a partir do posicionamento.

A questão não é, portanto, do que fisicamente o jogador é. A questão está em que a cada vez que muda de posição, Talisca é obrigado a pensar o jogo de forma diferente. Neste momento do processo de aprendizagem em que está, a sua dimensão de jogador ainda não aguenta isso. E a equipa sente esses abalos das sua mudanças de posição. Para o bem e para o mal. Como se viu em Braga (reforçada, neste caso, pela quebra física) porque sem esses fundamentos ele ainda não percebe o que é melhor para a equipa a cada momento.

Descobrir onde é melhor para a equipa um jogador estar nesta fase de formação/crescimento, seria o primeiro passo para a construção da “cabeça do futebol” de Talisca, dentro dele.

Fala-se muito do que será o “jogador do futuro”. Não acho que seja aquele capaz de jogar em todas as posições. Penso que será o jogador cada vez mais inteligente a pensar o jogo no maior úmero possível de espaços diferentes. O que é diferente de jogar em posições diferentes.

Penso mais na mobilidade que o jogo exige e leva o jogador a pisar terrenos diferentes (mais ou menos distantes da posição de origem onde parte). É este o ponto fundamental para a evolução do futebol passar pela capacidade das equipas mudarem de sistema no decorrer do próprio jogo.

Isso só é possível com bons jogadores... inteligentes (na chamada inteligência móvel). Não na mera questão de jogar em posições diferentes pois tal, na prática, abala a estrutura e solidez da equipa na forma como ela perde os pilares do equilíbrio que, quando cada um volta para as suas posições de origem ela resgata num ápice.

A grande mudança que sucedeu na gestão do modelo de Jesus nestes anos do Benfica foi a saída de um jogador/posição que deixou de existir e que, desse o inicio, lhe fora base: a do nº9 fixo de referencia. Cardozo, claro. Tal saída significou exatamente a maior necessidade de mobilidade inteligente em cima do sistema preferencial escolhido.

Nesse quadro, causa-me impressão dizer que uma equipa jogou em 4x2x4. Porque isso não é posicionalmente possível. Aliás, nenhuma ganharia um jogo assim, pois, pura e simplesmente, não teria meio-campo, local onde se controlam (ou perde) os jogos. Esse 4x2x4 é apenas um foto táctica da estrutura que se tira quando os alas sobem, estão no ataque e não baixam depois a defender, Então sim, vês na imagem 4x2x4. De raiz, essa estrutura não existe. Seria o desequilíbrio total. O problema é que, de facto, ela ficar muitas vezes, em muitos momentos do jogo, devido a esse facto. E assim poder perder o seu controlo. E, claro, perder o jogo.

DESTAQUE:
Uma equipa nunca joga em 4x2x4. Isso não existe como sistema. Seria o desequilíbrio total. O problema é, de facto, ela ficar várias vezes, em muitos momentos do jogo, nessa estrutura.