VELOCIDADE OU POSSE? O DEBATE DO MUNDIAL

25 de Julho de 2014

Não há relação direta entre os dois golos marcados e a sua entrada em campo (pois não teve intervenção nos lances) mas a verdade é que eles apareceram em três minutos pouco depois dele, Drogba, ter pisado a relva. Nessa altura, foi como um guia espiritual da tribo tivesse entrado em campo. É verdade que a sua entrada até provocou uma alteração tática, do 4x2x3x1 para o 4x4x2 (saiu o trinco Serey Die e passou a jogar com dois pontas-de-lança, Bony-Drogba, abrindo bem nos flancos com Gervinho-Kalou e Touré a mandar a meio-campo) mas onde a sua entrada causou mais impacto foi na velocidade com que a equipa passou a jogar, a toda a largura do campo, furando pelos flancos (fantástico o lateral-direito Aurier, embalado, com precisão de cruzamento, deu dois golos).

Até esse momento o Japão tinha passeado em sossego o seu “jogo de posse”. De repente, sem darem por isso, a Costa do Marfim “roubou-lhes” a bola e, com ela, ativou outra velocidade no jogo como até então não tinha sucedido.

Este jogo definiu muito do que tem sido este Mundial. Mais do que debater tácticas e sistemas, debater ritmos e estilos. A velocidade ou a posse. Claro que nenhuma destas filosofias prescinde da bola. Mesmo aquela equipa dita de “transições rápidas” (ou, taticamente à contrário senso, “de não posse”) precisa dela algumas vezes durante o jogo. Não lhe dá é tanta atenção e conversa de “passe curto” como as outras.

Num Mundial jogado muito no plano da resistência física esta opção pode tornar-se problemática no decorrer dos jogos (ou, numa visão mais ampla, na parte final do Torneio) quando é preciso uma equipa continuar a saber jogar bem mesmo cansada, o que obriga a saber segurar melhor a bola. Nessas alturas sente-se a falta de “cultura de posse”. Outras equipas, as da “casta da posse”, aproveitam-se melhor dela (sobretudo se a ganhar).

Mas nem sempre as coisas são sempre assim tão lineares. Os jogos (e as suas circunstâncias) têm vida própria. A velocidade no tempo e no ritmo certo continuam a ser o maior factor de desequilíbrio num jogo. Seja a equipa de posse ou não. Falemos, pois, da velocidade do... passe.

“EU NÃO QUERO A BOLA!”

Que impacto um golo aos 30 segundos tem numa equipa? Vários, mas, em geral, a mudança de “chip estratégico-mental” dá-se mais em quem marcou. É o natural instinto de proteção da vantagem que essa equipa passa a ter sem ter ainda aquecido “os motores táticos”. Sucedeu aos EUA com o Gana. Então, em 4x4x2 clássico, baixou no terreno e passou o jogo todo a defender com duas linhas de “4” (quatro médio-quatro defesas) nos últimos trinta metros. No meio deles, um trinco com tranças em forma de “carraça”: Beckerman.

O Gana tinha a bola, tentava circular, movia-se, trocava posições, buscava espaços (“buracos da fechadura”) na muralha americana, mas não descobria nenhuma fenda. Surgiu perto fim, entre o lateral e central, o “túnel de penetração” para o passe criar verdadeira ruptura. Calcanhar de Gyan e trivela de Ayew, golo! A lógica do jogo parecia respeitada, mas como se o futebol fosse apenas ironia, uma bola parada (canto) logo a seguir repôs os EUA (e, no fundo, a sua “estratégia de trincheira”) a ganhar. Será justo, neste contexto, comparar as duas equipas?