O que é verdadeiramente ser um bom treinador?

12 de Abril de 2017

1.

Eles parecem que moram numa nuvem (“icloud futebolístico moderno”) à parte, pairando sobre todo o resto dos bancos da Velha Albion e da Europa. Mourinho, Guardiola, Klopp e até Conte, o novo italiano que assusta o futebol inglês após a utopia de Ranieri, desfeita pela realidade. Junto a este mundo, um homem, argentino, que poucos olham na mesma dimensão. Mauricio Pochettino.

Formou-se no berço mítico de Santa Fé, foi aluno de Bielsa, e andou pela Europa como jogador, símbolo do Espanhol, até que virou seu treinador, saltou fronteiras e hoje é, talvez, o melhor treinador no futebol inglês, mas ainda sem a projeção mediática dos grandes nomes citados.

Neste momento, após se destacar no Southampton, recoloca (pelo segundo ano consecutivo) o Tottenham no top da Premier League, jogando um belo futebol, táctico e técnico, defensivo e ofensivo, sem faraónicas contratações, apenas com jogadores financeiramente normais de carne e osso. Há pouco tempo, lia uma entrevista sua, quando a certo ponto lhe fazem a pergunta das perguntas: o que é um um bom treinador?

“Ser um bom treinador significa muitas coisas: ser um gestor de grupo, ter uma liderança fundamental, conhecimento do jogo... É grande treinador porque joga em 4x3x3 e faz boas mudanças tácticas, mas logo depois tem problemas de relacionamento com os seus jogadores? E quem o julga? Os adeptos, a imprensa, os diretores? E com que interesse e critério o fazem? É injusto essa valoração. Muito mais se for pelos resultados em que o ganhar é sinónimo de bom treinador. Não concordo. Para mim, isso tem a ver com o que fica com o passar dos anos, o legado que deixa, como ajudas os jogadores a serem melhores futebolistas. Para isso é necessário tempo e experiência. É essa capacidade de análise que permite ver o que está por trás de um treinador”.

Nesta resposta/reflexão, Pochettino expressava tudo o que faz verdadeiramente a matéria de um treinador e a moldura de ilusões (ou fogueiras) em que o querem sempre meter. De nada adianta ter as qualidades que se atribuem aos mitos, se os jogadores não terminam satisfeitos depois de um treino.

O que disfruta a jogar é o que melhor representa o treinador. O que gosta de tocar na bola. O seu Tottenham tem muitos jogadores deste tipo. Desde o aristocrata tecnicista dinamarquês Eriksen, ao novo médio dono do meio-campo inglês, Dele Alli. Mas o jogador dos que teve sob as suas ordens que melhor o representa é outro: “Não nos representa o que melhor joga, mas sim o que se sente na plenitude num campo de jogo. É o que vi com Lallana no Southampton. Ele disfruta com uma bola nos pés”.

2.

As distintas gerações vão evoluindo e não se pode parar. O chamado “futebol do antigamente” sempre teve grande prestigio, mas não faz sentido comparar valorando épocas distintas. O futebolística continua igual, mas os tempos mudam, só isso. Há quem defenda que antes eram homens e agora são miúdos.

“Hoje o jogador tem que conviver com um desenvolvimento tecnológico que não o deixa fazer quase nada dentro de um relvado porque está durante todo o tempo controlado por 50 câmaras. No meu aconteciam as mesmas coisas, mas não eram públicas. Hoje não lhes posso tirar a câmara fotográfica e o Instagram. O que passa se deixam de poder alimentar o seu ego? Estará vazio. Se não os entendemos, vamos para um beco sem saída. Não há margem de voltar para trás”.

Por esta capacidade de entender e lidar com os novos “instrumentos do tempo”, está o treinador líder de grupo, muito antes da bola começar a rolar. Quando virem jogar o seu Tottenham e o talento emergente (cada vez mais firmado) de Dele Alli a correr com a bola, pensem nisto tudo.

Os treinadores, no fundo, não valem mais do que as suas ideias. Científico, filósofo, táctico, empírico, humano. Como disse um dia o eterno Cruyff: “Se tivesse querido que me entendesses, teria explicado muito melhor!”