Viagem pela Argentina

06 de Novembro de 2010

Viagem pela Argentina

Todas as épocas, é uma das principais fontes de importação do futebol europeu. Viajar pelas canchas da Argentina é, porém, como entrar noutro estilo de jogo. Na táctica e na anarquia de movimentos do meio-campo para a frente. Continuam a detectar-se muitos médios ofensivos atraentes que viram segundos avançados com as fintas que fazem, mas, vendo-os os jogar, a maior dificuldade é imaginar em que posição é que jogariam no futebol europeu. Ou seja, em comparação com o jogo argentino, que deixa esses homens soltos atrás dos pontas-de-lança e à frente da dupla dos médios-defensivos, a Europa exige um jogo posicional mais específico.

E então surge a pergunta: Ok, é bom jogador, mas, na Europa, pode, por exemplo, jogar na esquerda dum 4x1x3x2 ou mais fixo na ala em 4x4x2? É esse transfer que é muito difícil fazer. Dai que muitos quando chegam cá sentem-se desadaptados.

A estratégia passa, então, por detectar as suas características (se é rápido, visão de jogo, defende ou ataca melhor, etc) e depois imaginá-las numa posição europeia mais clara, sem, no entanto, lhe retirar a espontaneidade que faz a sua essência de jogador na Argentina.

Vários jogadores nas actuais melhores equipas argentinas provocam esta análise. Penso nisso sobre El Burrito Martinez, o organizador/criativo mor do Velez que alterna entre o 4x4x2 (com a dupla Silva-Cristaldo na frente) e o 4x2x3x1 (com Silva sozinho na frente). É, talvez, a equipa mais europeia na forma de jogar, não prescindindo porém do seu médio/avançado baixinho que finta e corre muito, Maxi Moralez, vagabundo entre a ala e o centro.

O melhor exemplo da actual tendência estilística do futebol argentino é, porém, o Estudiantes (líder com mais 3 pontos que o Velez) que pode ser campeão sem ter um único…ponta-de-lança. Joga em 3x4x2x1 ou 3x5x1x1 e o jogador mais adiantado é o segundo avançado móvel La Gata Fernandez, com Perez e Pereyra mais atrás.

Em ambas as equipas, a base táctica que segura o onze é, porém, a mesma: o duplo-pivot defensivo. Braña-Benitez (Verón tem estado lesionado), no Estudiantes; Somoza-Zapata, no Veléz. Quando querem elogiar um jogador destes, os argentinos dizem que…pivoteia muito bem, querendo referir-se à sua forma eficaz de ocupar o espaço e sair a jogar distribuindo jogo desde a frente da defesa.

Sucede o mesmo na outra equipa que luta pelo título, o surpreendente Arsenal Sarandí. Num 4x4x2 clássico, interessante a dupla atacante Obolo-Leguizamon, com Choy e Sena abertos nas alas, mas comandado atrás por Leiva (muito experiente) e Ortiz. Definir quem são os donos do campo nem sempre é compatível com o lado mais atraente do jogo.

Boca e River

Viagem pela ArgentinaSão os dois monstros eternos do futebol argentino, River e Boca, mas ambos atravessam fases cinzentas, longe da luta pelo título.

No River, o técnico Cappa, em 4x4x2, procura incutir um estilo de jogo apoiado mas a equipa, combinando veteranos como Ortega e Almeyda, com os pibes Ledesma (canhoto elegante, mas que precisa aumentar intensidade de jogo) e Funes Mori (nº9 esguio e rematador, com estilo parecido ao de Higuain) não consegue manter consistência defesa-ataque-defesa. Quando entra, Buonanotte continua a mostrar que pode ser um grande craque no futuro.

O jogador que tem mais futuro no estilo europeu é, porém, o médio Pereyra, apenas 19 anos. Posicionalmente começa descaído sobre uma faixa, a direita, mas depois sabe ocupar também zonas interiores. Uma inteligência táctica de movimentos quer a defender, fechando, quer a atacar, parecendo quase um ala ou segundo avançado.

O Boca de Borghi, em 3x4x1x2, com a possante dupla Palermo-Viatri no ataque, ganha criatividade apenas nos pés de Chavez. O paraguaio Medel marca o ritmo no meio-campo e, na esquerda, está um lateral, Gimenez, que merece atenção no futuro. A equipa procura controlar a posse de bola, mas é estranho ver os alas mais imaginativos (Mouche e Escudero) começarem quase todos os jogos no banco. É o pragmatismo também a invadir o fútbol argentino.

Pesquisando craques

Uma pergunta difícil: seria capaz de contratar um médio ofensivo que tivesse uma imagem do Rato Mickey tatuada no peito? A estranha questão coloca-se em relação a Mauro Formica, de 22 anos, nº10 do Newell`s. Organiza, luta e mete bem a bola nos avançados. O seu futebol não é digno de um cartoon, mas quando festeja um golo e tira a camisola ou a levanta por qualquer razão, a aparição do Mickey até torna o seu jogo mais imaginativo. Sendo assim, respondendo à questão, diria que “sim, porque não?”. Mas, talvez a resposta seria diferente se fosse um…defesa-central. Porque esta posição exige mais seriedade. Por isso, Botinelli, central do San Lorenzo (que já passou pela Sampdoria) não tem nenhum desenho animado tatuado. Esquerdino, rápido, atento e forte no jogo aéreo, é um jogador (experiente, 26 anos) que merece outra aventura na Europa.

Mas existem outros médios sem cartoons tatuados que valem a pena seguir, desde Diaz (Colon) a Fernandez (ala do Racing) ou Ramirez (10 do Godoy Cruz). Falaremos deles nos próximos tempos.