Viagem pela Argentina

09 de Novembro de 2012

Viagem pela Argentina

A partir deste momento, cada jogo pode decidir o campeonato. Newell’s e Velez encostaram-se no topo da Liga Argentina, o Racing descolou um pouco e o sensacional Belgrano aproximou-se. Faltam sete jogos. Embora sem grandes artistas, o fútbol argentino continua um vulcão de emoções. Observando estas equipas, detectam-se estilos diferentes.

No banco do líder Newell’s está o astuto Gerardo Martino que guiou vários anos o Paraguai, uma espécie de Itália da América do Sul. Saiu e a seleção guarani caiu a pique. Hoje, no Newell’s, monta um onze com três avançados móveis, mas que pede aos alas para recuar sem bola. São eles Maxi Rodriguez ou Sperdutti. Contra o Racing, porém, com ambos impedidos de jogar, meteu Tonso e Figueroa, mais médios que alas, e a dinâmica da equipa defesa-ataque-defesa funcionou na mesma. É uma espécie de 4x1x4x1, com Scocco solto no ataque e desdobramento em 4x3x3, formando um triângulo no meio-campo: Villalba, pivô fixo, e dois interiores abertos: o experiente Bernardi, 35 anos, temporizando e circulando jogo, e Peréz, 27, mais solto em posse.

Na saída de bola, faz subir muito os laterais e parece então jogar com defesa a 3, chefiada por outro velho caminhante das canchas, Heinze, 34. Nessa altura, o pivô Villalba recua para pegar na bola e sair a jogar, traçando as coordenadas de jogo da equipa desde trás. Um gesto táctico-técnico que os comentadores argentinos, pegando no nome da posição que o executa, definem, de forma sublime, como a arte de... pivotear.

Na relação individualidades-coletivo, o Vélez de Gareca, outro bom treinador-táctico, emerge como a equipa mais consistente do torneio. Joga em 4x2x3x1 e possui os melhores pivôs, o chamado doble-5 (na Argentina, a posição à frente da defesa é, por tradição do nº5 e não do nº6 como na Europa). Neste Vélez, o mais recuado pode ser Sills ou Cerro, apoiado por Cabral. Mais à frente, um nº10 vindo de outras eras, à moda antiga, o canhoto El Pocho Insúa, atrás de um ponta-de-lança algo inestético mas que faz golos e mói os defesas, Pratto. Na defesa, solidez numa linha de 4 inalterável: Cubero-Papa, laterais aguerridos, e Tobio-Dominguez, centrais personalizados.

Surpreendeu um pouco a quebra do Racing nos últimos jogos. É uma equipa muito bem orientada por um promissor técnico da nova geração, Luis Zubeldia, 31 anos, ex-jogador que abandonou os relvados devido a uma grave lesão. É ele que, neste irreverente Racing, agora está a lançar os pibes mais promissores do Torneio: Vietto, 18 anos, móvel e rápido, no ataque, ao lado do veterano Campora, em 4x4x2, com Centurión, 19, na esquerda e Zuculini, 19, a comandar o duplo-pivô ao lado de Pelletieri, enquanto, mais à frente, o barbas Villar manda na equipa.

Tacticamente, os treinadores argentinos são, no contexto sul-americano, muito superiores aos brasileiros e isso nota-se de forma muito clara na organização das equipas em campo.

River-Boca

Viagem pela ArgentinaO River Plate regressou da Série B e o clássico com o Boca, embora distante do titulo, voltou a acender paixões. Acabou 2-2. O Boca de Falcioni, o treinador que parece ter a cara esculpida à navalha, é, claramente, mais equipa. Somoza controla o meio-campo junto com Ervitti, mais adiantado, e marcam os ritmos de jogo, com Chávez solto entrelinhas. Sanchez Miño faz a faixa esquerda e, na frente, a dupla Viatri-El Tanque Silva descobrem sempre caminhos para o golo. Seria, porém, Leandro Paredes, que só esteve dez minutos em campo entrando para o lugar de Chávez, a melhor interpretar o que o jogo pedia: pausa com a bola, ler e passar bem. Paredes tem apenas 18 anos e saiu da cantera de La Boca. É urgente revê-lo!

O River de Almeyda é controlado em campo pela classe organizadora do experiente Ponzio, médio guardador de bolas, com visão e passe. Jogou muitas épocas no Saragoça e, aos 30 anos, custa perceber como não fez uma carreira de maior destaque. Neste River, joga recebendo a bola de Cirigliano, El Chefito à frente da defesa. No ataque Trezeguet, 35 anos, jogando com a experiência, coloca-se muito bem para receber a bola, mas perdeu a velocidade (de pernas e execução) de outrora. Assim, quem brilha é Mora (emprestado pelo Benfica). Rápido, com poder de desmarcação (em espaços curtos ou longos), vindo de trás ou fugindo aos centrais, e fazendo golos.

As ‘posições’ de Chávez

Viagem pela ArgentinaLeio, no mítico El Gráfico, uma entrevista com Cristian Chávez, médio do Boca, e quando lhe perguntam em que posição joga, percebe-se porque muitos craques sul-americanos sentem dificuldades na Europa: “Sou enganche natural. Movo-me solto por todos os lados. Volante pela esquerda e direita são ambas lindas posições. Roubar bolas e passar, é complicado que erre um passe”. Ou seja, Chávez, na resposta, falou em, pelo menos, três posições (e espaços respectivos) diferentes. Algo natural na Argentina, onde a mescla de segundo-avançado com o 10 deu origem ao chamado enganche que joga como um vagabundo.

Na Europa, com o maior rigor posicional, isso não existe. A amplitude periférica de movimentos está bem definida. Não está em causa a qualidade técnica de Chávez e do seu jogo. Está em causa que, na Europa, terá de inserir tudo o que disse num espaço e jogo posicional mais rígido e curto. Há os que o conseguem. E há os que se sentem como que enfiados numa jaula táctica quando isso acontece. A cultura táctica muda muito de jogador para jogador. Chávez, 26 anos, que tanto admiro, é das maiores incógnitas.