VOANDO ABAIXO DA DETECÇÃO DOS RADARES

24 de Julho de 2014

Quando se defronta equipas com avançados “puro-sangue” há uma coisa que é impossível deixar acontecer: que eles te ganhem o espaço nas costas da defesa. Se isso acontece, eles “matam” qualquer equipa. Não encontro explicação tática mais profunda para descrever a “avalanche” da Holanda sobre a Espanha. O debate pode centrar-se nos erros de abordagem aos lances dos “centrais” Sérgio Ramos-Piqué contra os “puro-sangue” Robben-Van Persie, mas a origem para esses latifúndios de relva aparecerem estiveram, previamente, no posicionamento global da equipa espanhola no momento de perda da bola. As jogadas de um-para-um (os duelos entre avançados móveis e os defesas a dançar) são, depois, com as “costas” ganhas, consequência disso.

Outra dimensão do jogo é a arte individual. A velocidade de Robben, com travão, finta (voltar a arrancar, voltar a travar) e remate, foram “terramotos” por entre o onze espanhol. Outra coisa, foi o golo em voo “asa-delta” de Van Persie. Naquele momento acho que era impossível Sérgio Ramos marcá-lo porque era impossível... localiza-lo exatamente. No seu voo para o cabeceamento parecia um daqueles aviões que voam abaixo da linha de detecção dos radares. Neste caso, o “radar” era a defesa da Espanha.

A estreia do Brasil teve a ansiedade natural dos jogos inaugurais. A equipa, no entanto, depende da ação de um jogador para ser um verdadeiro bloco nas ligações defesa-ataque-defesa. Isto é, reconhece-se a âncora” imóvel Luiz Gustavo e os avançados Fred-Hulk-Neymar. Há, agora que ligar estes dois “mundos tácticos”. Esse jogador ou avança dum dos pivots-volantes (Paulinho é curto, não tem essa rotação como pode ter Ramirez) ou recua nesses momentos o único avançado que sabe pensar também como médio: Óscar. É a melhor solução. Embora o retire, por vezes, tempo demais das zonas mais adiantadas, quando Óscar pega na bola sente-se de imediato que a equipa ganhou pensamento. Deixou de pensar com os pés, para pensar com a cabeça. Tudo o que vem a seguir, é por isso melhor. E executado com as “chuteiras pensantes”, claro.

“PETER PAN AZTECA”

VOANDO ABAIXO DA DETECÇÃO DOS RADARESHá jogadores que não deviam envelhecer nunca. E existem outros que nunca envelhecem mesmo. Um jogador que me transmite essa sensação sempre que o vejo é o mexicano Giovani Dos Santos. Recordo, então, aquele Mundial Sub-17 em 2005 no Perú. Tinha 16 anos e como brincava com a bola e os adversários. Imaginei logo o que podia ser em adulto mas nada foi como sonhado (Barcelona, aos 17 anos, Tottenham, Ipswich, Galatasaray, jogando sempre pouco, Santander, Villarreal...). Tudo isto podia levar-nos sobre como gerir a evolução destes jogadores que brilham nas camadas jovens mas depois desvanecem-se. É um debate longo.

A forma como, contra os Camarões, começou a festejar os golos que, quando olhava para o juiz-de-linha via que este tinha erradamente invalidado, rapidamente fazendo-o escurecer o olhar e expressão, eram a metáfora perfeita da sua carreira. Por isso, para mim, quando volta a vestir a camisola verde mexicana ele está “igual”. Uma espécie de “Peter Pan azteca”: um pequeno rapaz que se recusa a crescer e que tem aventuras mágicas em campo. Pura ilusão. Depois, volta aos clubes, à realidade dos 25 anos, e a “envelhecer” outra vez.