VOANDO POR CIMA DUM NINHO DE TÁCTICAS

28 de Julho de 2014

São, tantas vezes, os heróis de um jogo, salvam ou fazem resultados, mas quando se descreve o esquema táctico de uma equipa eles...desaparecem. Fala-se em 4x3x3. Devia-se falar em 1x4x3x3. É o estranho mundo dos guarda-redes, eremitas das balizas. Também podem, por vezes, ser o vilão, é verdade. Mas, em qualquer caso, são o jogador solitário que, vendo um “jogo particular” que parece só dele condiciona e ou exalta todo o da equipa
Este Mundial tem sido, para além dos sistemas e jogadas, um Mundial de grandes guarda-redes. Pelas exibições e defesas espetaculares, como pela forma de estar na baliza, A memória, claro, retêm os que têm feito as melhores defesas, voos fantásticos, salvando as “bolas impossíveis”.

Ochoa, do México, parece, no visual, seguir a linha dos loucos guarda-redes latino-americanos, mas, depois, no jogo, entre e fora dos postes, fita no cabelo que lhe sai espetado como um arbusto, defende com calma, segurança e uma agilidade brutal. A sua defesa contra o Brasil ao remate de Neymar, quase que o fazia confundir-se com a própria baliza tal como defendeu e foi contra o poste até os dois ficarem quase abraçados. De repente, a baliza era o próprio guarda-redes (ou vice-versa). Não pode haver comunhão maior para quem defende as redes.

Outros nomes têm nos feito levantar das cadeiras e sofás. Keylor Navas (Costa Rica), Bravo (Chile), Muslera (Uruguai), Romero (Argentina), Courtois (Bélgica), Domingues (Equador), entre outros. Parecem feitos de borracha. Mas, atenção, não são personagens tácticas de banda desenhada. Eles têm visão de jogo decisiva.
Vendo todo o jogo de frente, ordenam o posicionamento da linha defensiva e são quase “liberos” quando ela sobe e têm que sair com os pés. Fazem subir a equipa e dão-lhe a ultima palavra de segurança.
Este Mundial visto desde entre os postes tem sido fantástico. Pelo ar, voando ou indo buscar a bola metendo a cabeça onde os avançados metem os dentes das botas.

Os guarda-redes, “futebol de eremitas”, jogadores que planam por cima do sistemas tácticos. E ainda falta tanto Mundial para tantas grandes defesas.

FICÇÃO-CIENTÍFICA

VOANDO POR CIMA DUM NINHO DE TÁCTICASE, de repente, surge um baixinho encorpado a partir tudo com a bola. É o suíço Shaqiri. O mais curioso, porque já se sabia, claro, do seu valor, é essa aparição com velocidade (arranque), finta/condução e remate irromper por zonas centrais quando antes o fazia mais pelo flanco como extremo tradicional. Tem a ver com, agora, em 4x2x3x1, o colocarem no centro, a segundo-avançado atrás do ponta de lança. Nesse lugar, desintegrou as Honduras com três golos fantásticos. Contra França, teve, claro, mais dificuldade, pois as marcações gaulesas são feitas de outra fibra e cobre.

Apesar do “amasso” hondurenho, continuo a ver Shaqiri como essencialmente um “jogador de faixa”. Não diria, redutoramente, apenas um extremo, mas um jogador que pelas características (e valor global) só renderá a um nível competitivo mais exigente partindo do flanco, dando-lhe profundidade ou “aparecendo” no centro de surpresa, nunca lá vivendo e mostrando-se aos defesas que logo aguçam o dente para o trincar. Tem, porém, o fundamental neste tipo de avançado: imprevisibilidade. Faz parecer que cada jogada tem sempre algo de ficção.