Gato Félix das botas” no Dragão

31 de Março de 2019

O derrapar de João Félix de braços cruzados a deslizar na relva após o empate é um festejo de um jogador adulto “rato-velho” . Não é de um miúdo. Foi mesmo o jogo do titulo?

Foi o jogo em que o “centro interior” do meio-campo do Benfica esteve melhor a travar a saída de Oliver e Herrera (o oposto do que sucedera no duelo da Taça da Liga) com a ação de Samaris e Gabriel. Nesse estudo táctico,

O paradoxo foi, então, ver o “baby-segundo avançado” João Félix, Aquele corte de Samaris, num carrinho limpo, sem osso, no momento certo, após um centro raso atrasado, tirando a bola no último “pestanejar” do remate de Herrera que preparava o empate, mostra como nunca podem jogadores “sem abrigo” num plantel e como é nas “jogadas de bota-bisturi”. A forma como ele entrou ofuscou a memória de Fejsa é um símbolo do 4x4x2 feito 4x2x3x1 (com as dinâmicas referidas) mais sereno com que o onze moldado de Bruno Lage montou “sem pedir tempo” (e surge agora num processo de solidificação onde até já se tornou natural ver Gabriel a pressionar e sair da pressão, o que antes achava contranatural). Nesse ponto, no “duelo táctico-individual” com Oliver (por jogarem a partir dos mesmos espaços em cada equipa) o clássico foi dele.   

Claro que, nas oportunidades e até na tendência atacante superior portista, o resultado podia ser diferente, mas o jogo “táctico-técnico jogado” foi o que se viu.   

O derrapar de João Félix de braços cruzados a deslizar na relva após o empate é um festejo de um jogador adulto “rato-velho” . Não é de um miúdo. Embora Pizzi passe muito tempo do jogo dizendo-lhe quando abrir (ir para o flanco direito e Pizzi ir para o centro) ou ficando no meio (com Pizzi mais aberto ou solto e André Almeida a subir) a verdade é que falar, pela idade, em promessa e experiencia, é a pior forma de avaliar a “maturidade” de um jogador. A qualidade não tem idade. Mas tem formas indiscutíveis que se reconhecem nuns jogadores mais do que outros.

A última frase torna impossível não pensar no onze inicial desencantado pelo FC Porto. Pontualmente, não era um jogo “obrigatório” ganhar. Pontualmente, era um jogo “proibido” de perder. Para entrar a ganhar nas últimas dez jornadas.

Acho que Adrian Lopez está um jogador “menos triste” do que outros tempos (até pode meter a bola dentro dum lata de cerveja de livre nos treino) mas é impossível colocá-lo no nível de Soares, um “ponta-de-lança fera” que amassa defesas e vai buscar bolas de cabeça a onde mais ninguém o faz após cruzamentos.

Manafá é um lateral interessante a atacar mas há níveis de exigência competitiva (de transição defensiva e bolas divididas com avançados de gama alta) que não podem abrir fendas onde com outra opção, como Militão, dos melhores defesas do  mundo, não iria expor a equipa. O FC Porto alinhou um onze longe do melhor onze que já jogou melhor futebol esta época (e passada). Como o que tinha um terceiro médio (como Otávio) a aparecer de “por dentro” e dar um peso táctico de controlo, personalidade e qualidade que, junto com os outros factores, nunca a deixaria escorregar para a precipitação de ações como sofreu o empate. Nem toco na questão-Danilo, mexer na dupla Felipe-Militão (vendo as hesitações de Pepe) é intrigante. O equilíbrio perdido atrás da linha da bola a serenidade no jogo é que já não, foi, . 

2.

E agora, dez jogos para acabar o campeonato. Dois pontos a separar Benfica e FC Porto. Já foram sete ao contrário. A “margem de erro” azul esgotou-se. O Benfica também sente que, para ganhar, terá de fazer o final de campeonato perfeito. Mas, retirando os números e a pressão que eles causam, até onde chegamos vendo como se está a jogar?

Não é uma “guerra de sistemas” nem me parece (apesar da “cambalhota pontual”) de “estados de ânimo”. É futebol mesmo. Os treinadores jugam sempre pôr os melhores para ganhar cada jogo (mas, nesta altura, também já pensam que também não põem os melhores para começar a ganhar o... seguinte).

O FC Porto com o Benfica e o Benfica com Dínamo de Zagreb. Passaram-me vezes demais essa sensação. A oposta, para cada um, no clássico anterior. 

Há jogadores que, por mais que os treinadores digam que “são como os outros” todos sentimos diferentes. Porque fazem a diferença. De formas... diferentes. Porque jogam em posições diferentes ou tornam essas diferentes porque são eles e não outros que estão nelas. Numa palavra: a qualidade é intransmissível. O esforço é inegociável mas qualquer um pode ter. O que faz ganhar? A primeira. O que faz aguentar uma vitória? A segunda. (não acredito aqui na ordem arbitrária das coisas).

Vão-me dizer que os adeptos do FC Porto ou do Benfica sentem a mesma coisa quando a bola vai ter aos pés de Brahimi, Soares, Marega (com espaço de explosão) ou a João Félix, Pizzi, Rafa,, do que quando vai ter a outros? Claro que não. É a confiança sem duvidar que por ali a equipa vai crescer até onde outros não conseguem o fazer.

João Félix tem uma coisa, que já tinha Brahimi, por exemplo, para ser craque: sentir-se como craque e não ter medo de peitadas e, pelo contrário, encarar o “jogador central mais duro experiente”. O FC Porto não pode prescindir de ser insolente (a “maldade dos duendes”) no ataque.

O maior exagero no futebol é quando se... simplificam as coisas. A mudança de “chip de intensidade e agressividade” do FC Porto do jogo com o Benfica para a Roma pode ser um exagero mas é uma tentação demasiado grande para não a explicar simplificando com a mudança dos “outros jogadores” pelos tais que fazem a diferença.

Cada clássico tem tendência aos exageros. Já foi assim, e de forma decisiva, em anos anteriores (recordem por esta mesma altura, a vitória do Benfica de Rui Vitória em Alvalade ao Sporting de Jesus ou a vitória do FC Porto de Conceição na Luz ao Benfica de Rui Vitória). Esta época foi o Benfica de Lage no Dragão ao FC Porto de Conceição.

Mitroglou, Herrera.. Rafa. Há como fugir a estas sentenças do destino dos campeonatos?

E tudo fica em “30 metros” 

Uma equipa é um onze onde têm de caber esses jogadores insolentes dentro de um sistema que garanta a ordem no momento em que todos têm de trabalhar taticamente sem bola para proteger dos maiores perigos. Embora com diferenças, no clássico, do lado do FC Porto, e em Zagreb, vimos comportamentos que romperam esses códigos tácticos de solidariedade na equipa. Exatamente o oposto, no visto contra a Roma e no clássico do lado do Benfica. Em poucos dias, alternadamente, FC Porto e Benfica deram sensações diferentes em situações de importância decisiva igual.

Podia falar com “extrema generosidade” dos momentos em que falharam e os treinadores ficariam com os “egos só reativos á critica” mais bem compostos. Não sou assim, nem acho que isso faça bem a ninguém.   Terminemos, assim, só com futebol-jogo puro; Será importante ver o Benfica sem Seferovic nos últimos “30 metros”. Será interessante ver se o FC Porto volta a preencher os primeiros “30 metros” com Militão ou solta Manafá para ir sempre além deles até cair com caibras.    

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