As palavras que te direi

11 de Julho de 2010

Desde 82 que um Mundial não reunia tanto bom futebol e, no fim, era tão justo com a melhor equipa que, no fundo, é muito mais do que uma equipa. É a personificação em campo de uma IDEOLOGIA de jogo, de uma CULTURA de construção futebolística. A Espanha é campeã do mundo (e da Europa) porque nunca se desviou nesse processo de (re)CONSTRUÇÃO de todo o seu edifício futebolístico desde as bases (selecções jovens, clubes, treinadores, selecção principal). Tudo respeitando um ESTILO. Uma vitória (e seu trajecto até chegar lá) que são uma LIÇÃO para todas as nações que queiram «pensar» o seu futebol. Repararam nas palavras em maiúsculas? Ideologia, cultura, construção, estilo, lição.

Quando Iniesta tirou a camisola na festa do golo, com um país todo aos pulos, mostrou uma mensagem para um colega tragicamente desaparecido, Jarque, que, em 2002, tinha só 18 anos, estava com ele na selecção Sub-19, que então ganhara esse Europeu, treinados por Iñaki Saez, fiel escudeiro dos fundadores do futebol-base espanhol desde início dos 90, junto com Jesus Pereda e, o pai de todos, Santiesteban. Este TÍTULO que, noutro ponto, bebeu da escola catalã de Cruyff, tem a impressão digital destes homens. Em tudo, o mais importante está nas raízes. Pegaram naquelas palavras maiúsculas e deram-lhe o ADN genético que as faz viver.

Morfologicamente fiel ao seu traço, disse, também o que é a força atlética no bom futebol. Algo que não se mede pelo peso ou pela altura. Mede-se por correr melhor, não por correr mais. Pela intensidade de jogo, pela velocidade e cruzamento com a técnica resistente. Foi, pois, o triunfo dos monstros físicos baixinhos com 1,70m, “Xavi e Iniesta S.A”.

Após esta viagem é difícil falar das chaves tácticas que ditaram o sucesso na Final. Mas elas existiram, claro. Mais do que desenhos com setas, basta citar um nome: Fabregas. Entrou a meio da segunda parte e com a essência do passe, passou a ser o elemento estranho que confundiu as marcações holandesas então quase impecáveis. E perceber uma coisa: quando entrou Fabregas não entrou só mais um jogador. Entrou um dos maiores profetas de toda aquela IDEOLOGIA e ESTILO de futebol!

Um lance,uma vida

Quando, já a meio da segunda parte, Robben fugiu a toda a Espanha e se isolou em frente a Casillas, ficou, num ápice, perante a oportunidade para mudar a história, um remate que, sozinho, teria a força, podia repor justiça na lenda do idolatrado futebol holandês que joga bem mas não ganha. E a bola partiu. Robben, sempre em corrida, escolheu bem o lado, viu Casillas a tombar para o outro, e o golo parecia ser um destino inevitável, quando o guarda-redes espanhol (com meias brancas a fazer recordar Arconada) esticou a perna e tocou na bola, quase subtilmente, mas o suficiente para a desviar alguns centímetros da baliza.

Acredito que, pela vida fora, este lance irá tornar-se como uma metralhadora na cabeça e na memória de Robben. Nada a fazer. A Holanda perdeu a sua terceira final de Mundial. Todas diferentes, porém. Nesta, a equipa terá abusado, em termos de meio-campo, do «jogo de pares» (quase marcações individuais) que tentou fazer colocando De Jong e Van Bommel a cair quase sempre em cima de Xavi e Iniesta. Durante a maior parte do tempo, isso tirou auto-determinação de transição ofensiva à equipa. Quando se libertou um pouco disso, foi quando (com um passe divino de Sjneider) Robben se isolou perante o destino. Falhou.