As “velhas anormalidades”

01 de Junho de 2020

FC Porto e Benfica falharam os dois revelando “pecados” antigos. Do outro lado, o Tondela soube fechar, o Famalicão sabe jogar!

Chamam a este tempo de “nova normalidade”. É possível, porém, que ele conviva com a “velha anormalidade”. O futebol é exemplo para perceber isso. Dentro e fora do campo.
Gostei de rever o Famalicão a querer bola nas saídas desde trás através duma dupla complementar, Racic-Pedro Gonçalves. Fisicamente diferentes, um possante e um baixinho, mas iguais na leitura de jogo evoluída. Mesmo sem o seu pivot de referencia construtiva (Assunção) manteve os sinais vitais de “jogo associativo”, largando Fábio Martins mais no meio. Uma “velha normalidade” de qualidade colectiva táctico-técnica.
Não foi, assim, por acaso que o golo da vitória surgisse duma saída vertical (técnica e remate) de Pedro Gonçalves. Como também não foi que o golo do FC Porto saísse do tricot tecnicista, em espaço curto e pressionado, de Corona.
O caso-Tecatito já vem, porém, de “velhos jogos”: ver o melhor avançado-criativo portista, extremo ou em mobilidade, como lateral. Faz bem a posição mas ficando longe do seu melhor lugar, entenda-se o mais perto possível da área adversária, a equipa perde nesses espaços o seu melhor jogador capaz de fazer a diferença no desequilíbrio individual, ultimo passe e até remate. A dinâmica ofensiva portista precisa, para ser eficaz, do Corona avançado, não do Corona lateral-ofensivo.


A plantação defensiva do Tondela voltou a colocar evidente a falta de criatividade do jogo benfiquista em ataque organizado posicional. Um “anormalidade” no jogar duma equipa grande já evidenciada em jogos anteriores. Por mais que Lage queira jogar com um homem entrelinhas nas costas do nº9 clássico, essa tipologia de jogador não existe no plantel. Taarabt não tem inserimento desde trás nessa posição e Rafa não está rotinado no lugar, embora a intenção fosse ele aparecer nesse espaço deixando a faixa aberta para as subidas de Grimaldo. As características dos jogadores ao jogo e o tipo destes confrontos de ataque continuado-adversário fechado, dizem que estes jogos, mais do entrelinhas, têm de se decididos na área. Isso pede dois pontas-de-lança e 4x4x2 (em vez do híbrido 4x4x1x1).
Lage lançou essa fórmula, com Dyego Sousa, para a ultima meia-hora, já com os níveis de ansiedade da equipa muito altos. A falta de “jogo exterior”, com Rafa metido na zona de pressão central e Pizzi claramente fora de forma (ressentindo-se muito na rotação atacante da equipa) tornou visível a falta de ideias criativas colectivas.
A bola andar perto da baliza mas nunca percebeu o que queriam fazer com ela. Nessas condições, um muro de “cimento defensivo”, como o do Tondela, consegue ser mais eficaz. Basta ter a inteligência de... não se mexer.