Brasil: Dinâmica destribuição-ataque, De Douglas Luiz a Neymar

14 de Outubro de 2020

A análise dos jogos do Brasil no arranque do apuramento para o Mundial 2022.

O Brasil iniciou as eliminatórias para a Copa do Mundo do Catar como esperado: duas vitórias em dois jogos contra Bolívia e Peru, com nove gols marcados e dois sofridos. O primeiro jogo foi praticamente um treino (o que não deixou de exigir uma boa atuação), o segundo, também como imaginado, mais difícil (o que indicaria algumas respostas). Mas além dos resultados aguardados, boas atuações dentro de uma dinâmica um pouco diferente das últimas apresentações e novas peças que parecem se consolidar dentro do grupo — como Renan Lodi e Douglas Luiz, que vão ser destacados nas linhas abaixo.

Antes de qualquer coisa também é importante citar que, embora seja óbvio, esses são os testes do Brasil na arrancada para uma Copa do Mundo, a seleção de Tite não vai disputar a Eurocopa ou a Nations League durante sua preparação. Testes mais duros serão importantes e bem-vindos, mas agora essa é a realidade e o parâmetro. A ideia aqui é visualizar as primeiras mudanças dentro do novo ciclo e traçar paralelos com o que já foi feito e o que pode dentro do que o comandante busca. Agora, no início de uma nova caminhada, pouco adianta falar “quero ver isso contra a Bélgica”, ou “contra a Bolívia é fácil”, sem compreender intenções de um novo trabalho.

O ponto de partida e como o time se desmembrou a partir da saída de bola

4-3-3, 4-2-3-1, 4-1-4-1… Os números do esquema são a parte “menos relevante” da análise, dizem muito pouco sobre o jogo. Serve mais como um ponto de partida, algo para observar quando o time se reagrupa para marcar. A partir da bola os times têm formas mais variáveis, por conta da movimentação dos jogadores para criar chances de gol. A estrutura de Tite tinha algo próximo do desenho acima, com Neymar aberto pela esquerda e Everton/Richarlison na direita, com Coutinho no centro, perto de Casemiro e Douglas Luiz.

A partir disso entra a dinâmica que Tite busca propor a equipe, começando por funções bem diferentes para os dois laterais, que impacta logo no primeiro toque. Na saída de bola/transição da defesa para o ataque, Danilo se torna um meio-campista, enquanto Renan Lodi avança para ganhar espaço pelo corredor direito, seu ponto forte. Nesse momento, Danilo se alinha aos dois “volantes”, Casemiro mais ao centro e Douglas Luiz, a novidade na arrancada das eliminatórias.

A ideia é “sair apoiado”, o que quer dizer ter várias opções desde o primeiro toque para avançar trocando passes com, ao menos, cinco jogadores perto do próprio campo. Isso dá a seleção, em vários momentos durante os jogos, superioridade numérica no setor com a bola e uma “segurança” para caso perca a posse, possa estar equilibrada para defender.


A organização ofensiva e Neymar mais articulador

Cinco jogadores ficam responsáveis pela transição, enquanto os outros cinco se movimentam no campo ofensivo para oferecer condições do time chegar ao gol. Dentro dessa dinâmica, posições bem estabelecidas – o que não significa que são peças estáticas ou de pouca mobilidade. Renan Lodi ganha o corredor, o que faz Neymar centralizar e jogar perto de Coutinho, atrás de Roberto Firmino, com Everton/Richarlison completando a “linha de 5” que ataca pelo lado direito.

Nesse panorama, Neymar e Coutinho são articuladores mais centrais, jogadores que se movem entre as linhas, dão opção de passe para, principalmente, Douglas Luiz, Danilo e Casemiro, os “condutores” que trazem a bola da defesa. Função que não fez com que a dupla ficasse estática na frente. Diante da Bolívia, principalmente, os meias buscaram muitas vezes o jogo no pé de um dos volantes, para tentar ser mais um construtor de frente para o gol.

Em 180 minutos de eliminatórias, Neymar produziu três gols, duas assistências e mais cinco passes para finalizações. Foram quase 200 toques na bola e 26 dribles em duas partidas. Jogando no centro, de frente para o gol, o camisa 10 é muito mais acionado e sua versão articulador tem agregado muito mais aos seus times. Neymar se tornou uma peça de maior desequilíbrio coletivo, porque reúne drible, velocidade, deslocamento, visão de jogo e ótima finalização em uma zona ainda mais fatal. É a mais completa versão de sua carreira.
Douglas Luiz, o cara do passe e o grande destaque

O meia do Aston Villa foi a grande novidade de Tite entre os titulares da seleção no arranque das eliminatórias. Douglas Luiz ficou com a vaga que foi de Arthur ao longo da Copa América e teve um teste com Allan nos últimos amistosos. A função de ser o condutor da saída, o jogador que controlava a bola e fazia o time jogar desde o próprio campo. E a resposta foi extremamente positiva.

Pelo lado esquerdo do meio, Douglas Luiz organizou a saída limpa e fez o time jogar, procurando Neymar, Coutinho e Renan Lodi no corredor próximo ou até mesmo Richarlison/Everton em alguma inversão. E também se posicionando para cobrir os avanços de Lodi em vários momentos. Repare que nas três imagens em que o camisa 8 aparece acima, está próximo da bola.

Douglas Luiz somou 148 acertos de passes em 161 tentativas ao longo das duas partidas, com dois passes para finalizações, sete lançamentos certos em nove, seis desarmes e quatro dribles. Números que ilustram sua eficácia a partir da bola em um time que ficou com a posse por 67,5% do tempo em média. Uma peça chave para o rendimento e as pretensões de Tite.

Os primeiros jogos da seleção no caminho até o Catar mostraram uma estrutura interessante e bem executada pelos jogadores, mesmo com pouco tempo de trabalho. Tite procurou potencializar as principais características dos jogadores e dentro de uma lógica acomodar de forma que pudessem render ao máximo. O saldo é positivo e a expectativa é de evolução em todas as fases do jogo. A Copa do Mundo já começou.

Por by Raí Monteiro
Taticamentefalando.br