BRUNO MORAES E OUTRAS ESTRELAS

16 de Março de 2005

BRUNO MORAES E OUTRAS ESTRELAS



Foi feito, na escola do Santos pelo mesmo feiticeiro da formação, que inventou Robinho. Nesses primeiros tempos, o Bruno até era dos que prometia mais. Sinceramente, vendo o «saco» de brasileiros que o FC Porto tem hoje no seu plantel, causa estranheza que um dos melhores, já contratado a época passada e que se estreou, no onze principal, pela mão de Mourinho, tenha sido emprestado: BRUNO MORAES. A bola vem ter com ele e logo parece mais redonda. Recebe, domina, toca curto, levanta a cabeça, lê o jogo, ilumina as jogadas, os companheiros, todo o Estádio.

Couceiro, que em Setubal se chateou com ele por causa daquela história dos penaltys marcados sem autorização, saberá, certamente, o diamante canarinho que passeia no Bonfim. O seu estilo de jogo soltasse melhor, sem grandes amarras de marcação táctica, quando joga nas costas dos avançados, no tal espaço de criação entre-linhas onde pode fabricar assistências mortais, remates para golo ou outro rasgos que descolocam as defesas adversárias. Sou capaz e me deslocar de propósito a um Estádio e pagar o bilhete só para o ver jogar. E, olhem, que são muito poucos em Portugal os que logram essa proeza de mim, «mendigo do bom futebol que passeia pelos estádios lusos de chapéu estendido pedindo: uma linda jogadita, por amor de Deus...”, como diria o Eduardo Galleano...

BRUNO MORAES E OUTRAS ESTRELAS ANDRÉS MADRID revela um «encaixe» no ritmo e no estilo de jogo europeu invulgar para um sul americano recém-chegado. Na Argentina, no Gimnasia jogava mais adiantado, atrás dos avançados. No Braga de Jesualdo, talvez devido a ter entrado no espaço deixado livre pela saída de Luis Loureiro, joga em posições mais recuadas. Nessa zona, nota-se pouco, mas raramente falha um passe. Contra o Benfica esteve impecável. Em Setúbal, teve maior liberdade de movimentos e mostrou como entrando a jogar no meio campo adversário sabe sempre o que fazer á bola. Traça coordenadas e tem grande precisão de passe curto e longo (notável o cruzamento para o 4-1 quando descaiu para a direita). O tipo de jogador que sabe sempre para o que joga. Não é muito rápido, nem demonstra a típica picardia latina americana. Joga simples, eficaz e com tranquilidade. Fala com a bola nos pés e o Braga ganhou, com ele, mais um médio com grande leitura táctica de jogo, decisivo para atacar o sonho cada vez menos utópico do titulo.

BRUNO MORAES E OUTRAS ESTRELAS Em Guimarães, começou a jogar aos poucos, esta época, um miúdo nascido nas planicies do baixo alentejo, Beja, que, desde a primeira vez que o vi me cativou o olhar: pela velocidade, pela forma como encarava os adversários, ultrapassava-os em drible longo (a finta em progressão) e, depois, como procurava, com objectividade, entrar na área adversária.

Tiago TARGINO. Começou a jogar no Desportivo de Beja, onde fez a sua formação, até que com 15 anos, rumou a Guimarães, diz-se que a troco de... 15 bolas de futebol! O estilo técnico, irreverente e artistico do seu futebol tem origem, porém, nos genes brasileiros que transporta, naturalidade dos seus pais. Aliás, o seu pai, de seu nome Hilton, foi um dos melhores jogadores da história do Desportivo de Beja (onde hoje é adjunto na equipa júnior) e chegou a alinhar em vários clubes nacionais, com destaque para o Portimonense. Com essa base genética, o futebol esquivo e matreiro de Targino, sempre com um sorriso malandro, emerge com a naturalidade dos meninos de rua sul-americanos. Gosto muito dele.

Parece-me que precisa de ser alvo de muito trabalho táctico individual.

Quer carinho, no fundo.. Será sempre, no entanto, pois há coisas que vêm e base e já não se mudam na idade sénior, um jogador algo indomável.

Pode aprender, porém, a controlar esse estilo mais anárquico. Talento, esse, tem para fazer uma carreira em alta-velocidade...

JOSÉ CASTRO, defesa central feito na Académica, simboliza a elegância.

Por vezes, até parece ter classe a mais na forma altiva como sai com a bola, cabeça levantada, ou entra no corte, simulando um tackle durinho, para, depois, roubar a bola com soupless ao adversário. Talvez precise de maior olho vivo e agressividade mas o mais importante já tem e alta á vista: pinta de craque. Tudo emoldurado na vertente técnica eu fez a bela tradição da escola coimbrã de futebol, tão confusa nos últimos anos. JOSÉ CASTRO resgata esse perfume tecnicista dos «estudantes» dos velhos tempos.

NELSON, saiu do inferno em que caiu o Salgueiros nos últimos tempos, para entrar, sem fazer ruído, no Boavista de Jaime Pacheco, conquistando o lugar de lateral direito com uma naturalidade que, primeiro, pensou-se ser circunstancial, e, depois, percebeu-se ser consequência das suas enormes qualidades. Sabe defender, atacar, dobrar e sair com a bola dominada. Lê muito bem os timings das bolas que caem nas suas costas e, por ser atleticamente bem constituído, sai sempre bem no corte por alto, interceptando lançamentos longos. Espero, em breve, voltar a ver um jogo dele ao vivo e fixar-me com mas atenção em todos os seus movimentos. Pode estar ali um lateral-direito para marcar época no nosso futebol....

BRUNO MORAES E OUTRAS ESTRELAS Uma das maiores descobertas da época chama-se JOÃO ALVES (nome de craque, claro) e foi “pescado” pelo Braga em Chaves onde fazia dupla á frente da defesa com outra bela revelação da temporada, Ricardo Chaves, volante de contenção do Setúbal. João Alves possui, no entanto, maior amplitude de movimentos. Passa bem, sobe no terreno, vira o jogo com uma facilidade impressionante, organiza, luta e enche o meio campo nas tais transições defesa-ataque-defesa, manobra no qual é a chave do sucesso da forma equulibrada e eficaz como o onze de Jesualdo fecha bem a defender e, depois, parte, com veneno, para o contra-ataque. JOÃO ALVES é o segredo. Craque “táctico” puro. Uma pérola para o dito futebol moderno!

JOÃO PAULO, do União de Leiria, é um defesa central que, por si só, impõe respeito. Nunca treme, olha para os avançados como lhes dizendo ir roubar-lhes a bola mal ela surja perto dele e tem grande presença no eixo defensivo. De cabeça e com a bola na relva, ataca o lances sempre com decisão. Durinho sem entrar em agressividades excessivas. Depois, sabe ir á frente nas bolas paradas. Não é um poço de técnica, mas sabe segurar a bola pelo tempo necessário para a entregar, “redonda”, aos médios defensivos que moram á sua frente.

BRUNO MORAES E OUTRAS ESTRELAS Já tem 30 anos e, sinceramente, custa-me ver como chega á fase final da carreira sem ter vedadeiramente soltado o seu futebol vertiginoso, serpenteado e de remate fácil, em palcos com maior dimensão. ZÉ MANUEL, uma serpente do minho, que foi lançada na alta roda da I Divisão por José Mota no Paços de Ferreira. Agora, no Boavista está a provar porque o seu jogo coloca a cabeça á roda os defesas adversários. Nunca se sabe o que vai fazer quando recebe a ola. Ou engata um remate do “outro mundo” com o que valeu o 2-2 dos axadrezados na Amoreira, ou sai a driblar com uma destreza de coelho na floresta, embora, claro, ZÉ MANUEL seja mais difícil de apanhar. Ele e Nelson são as boas noticias do Boavista de Pacheco em 2004/05.

Um obrigado muito especial ao leitor Carlos Pinto, pelos dados fornecidos em relação ás origens de Tiago Targino