Champions 20/21 (bloco de notas I): Novos poetas épicos        

27 de Outubro de 2020




De Tokmac Nguen a Szoboszlai, as “cores unidas do futebol”. 

 

Em tempos remotos, eles foram os melhores do mundo a mostrar “novos mundos” de táctica e técnica ao mundo do futebol. A Hungria tem ressonância mítica para os velhos amantes da “arqueologia do grande futebol”. Mas o tempo passa (demasiado) depressa. Ficam as memórias (eternizadas em esbatidas imagens a preto-e-branco) de Puskas a Kocsis e Czibor.

Nesse tempo, pré-Taça dos Campeões, o mundo via o Honved e o futebol da seleção magiar como o mais forte do mundo. No presente moderno, porém, nunca uma equipa húngara tinha sequer atingido a fase de grupos da Liga dos Campeões. Até chegarmos a este estranho ano de 2020 e ressurgir o lendário Ferencvaros.

Estreou-se no Nou Camp, foi goleado, mas no inicio causou sensação a atacar. A criar perigo na frente, porém, não estava nenhum herdeiro direto da dinastia de Puskas. Estava um veloz avançado rematador chamado Tokmac Nguen, que nascera no Quénia filho de uma família de refugiados sudaneses, que deixara o sofrido Sudão fugindo da guerra em busca de uma vida melhor.

O esquivo Tokmac foi descoberto para o futebol pelo Stromsgodset da Noruega quando tinha apenas 17 anos. Cresceu, assim, da origem no Sudão e Quénia para a Noruega, até ser adquirido por 400 mil Euros, em 2019, pelo Ferencvaros húngaro. Está agora com 27 anos. Chegou a jogar pela seleção sub-19 da Noruega mas depois as lesões travaram-lhe a ascensão até que em 2019 foi chamado para a seleção do... Sudão. Por tudo isto, toda esta explosão do seu futebol no atual futebol húngaro, com velocidade a fugir aos defesas e remate para o golo, é uma admirável história do “futebol global” dos novos tempos. Uma Hungria sudanesa com formação futebolística norueguesa. Um jogador empolgante, pela história de vida e pelas “jogadas zig-zag” que hoje faz pelo Ferencvaros.

Ao mesmo tempo, o novo craque húngaro que resgata o velho perfume do futebol magiar, emerge na Áustria, no Salzburg e no milionário projeto da Red Bull.

Chama-se Dominik Szoboszlai, filho da geração do ano 2000. O seu talento apareceu cedo (ingressou logo no Liefering, a filial do Salzburg). Vendo-o, aos 20 anos, no primeiro jogo da Champions (contra o Lokomotiv) viu-se logo como desafiava o jogo em cada jogada, partindo desde a faixa esquerda para depois em diagonal inventar com o pé direito (fazendo um golo de encantar com um grande remate ao ângulo). Viu, também, um amarelo cedo por protestar e entrar mais agressivo. O seu futebol tem “sangue” e classe. Provoca e deslumbra. Antes de receber a bola, já pensa no que vai fazer, como se estivesse só ele em campo. Arrisca sem tremer, encolhe os ombros quando falha e festeja para as bancadas quando marca ou faz uma das suas fantasias. Não é, nesse sentido cruzado, um jogador húngaro á moda antiga. É um produto dos novos tempos, de temperamento e talento.

Numa atmosfera envolvente, o Rennes de Camavinga (já com o nº10 nas costas) arrancou na Champions frente ao Krasnodar. Atmosfera fantástica (publico talvez a mais neste estranho tempo) e um futebol de ataque que, com Nzonzi a assumir a posição nº6 de médio-centro defensivo, ganha mais solidez atrás, o que permite também libertar o canhoto Camavinga, como interior-esquerdo, para missões de criação mais ofensivas. Com o esguio Guirassy na frente como nº9, este sedutor Rennes de Guy Stephan tem sempre, no seu jogo, a promessa (em 4x3x3) de bom futebol ofensivo, mais truculento do que ordenado, mas sempre com poder de desequilíbrio. É uma nova face (e fase) do multicultural futebol das equipas francesas, sempre em busca de aventureiros desterrados para juntar dentro do relvados numa comunhão de “futebol emocional”.

Nguen, Szoboszlai e Camavinga. Três jogadores, três fascinantes histórias de vida, três diferentes formas de olhar para a mais profunda e sedutora Liga dos Campeões.