Como construir uma boa equipa

16 de Fevereiro de 2007

Como construir uma boa equipa

O futebol mudou com o tempo, mas, em qualquer época, só é possível construir a partir da organização e do estilo. Penso no que teriam sido diferentes, independente dos resultados, os últimos 20 anos do futebol português se Pedroto não tivesse partido tão cedo. Fora e dentro das quatro linhas. Recordo-me, ainda miúdo, de o ouvir num colóquio na Casa de Desporto no Porto. 1982. Nessa altura, vivíamos um terrível complexo de inferioridade em relação ao resto do mundo futebolisticamente civilizado. Pedroto dizia que lhe faltavam 30 metros. Ainda hoje há quem diga que sim, era verdade, mas a sua forma de jogar era uma das grandes responsáveis por isso. Não acho. Penso é que ele entendeu o que era ser português dentro de um relvado e, para o bem e para o mal, forjou, ao tempo, a nossa identidade. Recuada, ok, de contra-ataque, demasiado longe da baliza, mas sempre com personalidade. Isso é que era importante.

Perguntaram-lhe, então, se era possível aquele Portugal acabrunhado voltar ao nível de 66 ou, se pelo contrário, tínhamos esperar por uma nova geração de Eusébios. Num tempo em que ninguém acreditava e eu só percebia o que era o grande futebol pelos cromos, lembro-me de ficar estupefacto com a sua resposta: “Não, nós temos dos melhores jogadores da Europa e do Mundo. Também podemos ir a Mundiais e ganhar Taças europeias. Com estes, sim, não com os Eusébios do futuro!” Repetia com veemência e a plateia perguntava, mas como? quando? com quem? Pedroto insistia: “com o nosso estilo, com a nossa forma de jogar.

Não somos inferiores a ninguém”. Dizer isto quando não ganhávamos a …ninguém, parecia heresia. Mas não era. Pedroto sabia o que era o nosso futebol. Força e fraquezas. A ideia era manter a identidade mas libertá-la do complexo de inferioridade. Afinal, como fez no FC Porto à escala nacional. Devolver-lhe o orgulho e revolucionar mentalidades. Nisso, na arte do conflito, também seria mestre.

Personalidade e identidade

Como construir uma boa equipaAqui estão dois pontos fundamentais para construir uma equipa: confiança (mentalidade) e identidade (táctica). Jogar sem complexos, sabendo os terrenos que se pisam. É unânime que muitos jogos da actual Liga têm sido fantasmagóricos. As equipas que conseguem fugir a esse cenário são as que criaram uma identidade cruzada com a força mental. Não é preciso ter os melhores jogadores do mundo para isso. É preciso tempo, dirão.

Sim, é verdade. Só se pode construir a partir da organização. A identidade colectiva passa, exactamente, por um processo de conhecimento mútuo, tendo como ponto de partida as ideias do treinador. O Paços de Ferreira, onde nenhum jogador será capaz de pintar a capela sistina, é um bom exemplo de tudo isto. O Nacional da Madeira com Carlos Brito também ameaça começar a ser. Esqueçam os resultados, pensem em como jogam. Confiança e ideia de jogo. Ao contrário do onze de Mota, a equipa de Brito ainda se desequilibra com facilidade perante as dificuldades.

Será uma questão de colocar mais cimento no edifício táctico definido.

«Jogar bem» é, por vezes, difícil de definir, mas os seus traços são fáceis de descobrir. Ganhar ou perder, isso é outra questão, mas é pena que só o argumento dos resultados sustente, a médio prazo, esta ideologia.

O CHOQUE PAÇOS DE FERREIRA-SPORTING

Como construir uma boa equipaGeometricamente, poderá ser, no plano táctico, o choque entre um losango e um triângulo. O 4x4x2 de Paulo Bento versus o 4x3x3 de José Mota. Por ter mais lados, pode parecer que o primeiro leva vantagem, mas é mera ilusão, pois o segundo não vive sozinho em campo e tem a ajuda, para ganhar largura no terreno, dos laterais e extremos. Inserido num bloco baixo, isto é recuado no terreno, o triangulo de José Mota é o pilar das transições defensiva do Paços, mas como joga quase sempre ao homem, isto é, em vez de jogar nos espaços em antecipação (à zona) procura encostar nos adversários, num jogo de pares, necessita do recuo dos extremos para ganhar a bola na entrada do meio e campo e, a partir dai, lançar o contra-ataque. Para dar auto-determinação com bola ao tal triângulo do meio campo, será decisivo, portanto, forçar que, sem bola, o losango do Sporting abra nos flancos, quando, ao invés, costuma fechar no meio junto do trinco. Poderá estar aqui uma das chaves tácticas do Paços-Sporting. Um triangulo a perfurar um losango.

Duelo: BRUNO AMARO - KATSOURANIS

Como construir uma boa equipaNão pisarão, em princípio, os mesmos espaços, pois, no meio-campo das suas equipas, ambos tem tendência a ocupar a meia-direita, mas, no plano da luta pelo controlo da bola e do ritmo de transição defesa-ataque eles serão decisivos no choque Nacional-Benfica. Ambos lêem o jogo de trás para a frente, queimam linhas com a bola nos pés e, depois, nas imediações da área adversária, causam desequilíbrios. Katsouranis passa e ainda rompe na área à espera de outra assistência. Bruno Amaro, com maior intensidade de jogo embora menos culto tacticamente do que o grego, nunca perde a oportunidade de quando cai, com espaço, nos últimos 25 metro, e solta o seu potente remate. Dois médios, cada qual no seu estilo, para, num duelo particular, decidir quem ganha o meio-campo da Choupana. Meio-caminho andado para, depois, ganhar o jogo.