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Como Não Mexer Num ”Coração”

29 de Maio de 2017

Quando Miguel Silva largou aquela bola fácil como se fosse uma bomba camuflada após um remate frágil de Jonas, já o Vitória tinha largado o controlo do jogo. A finalização de Jiménez é sublime e com aquele toque “chapéu-remate-passe á baliza” abria o marcador e fazia o Vitória desfazer-se como um castelo de cartas quando antes, em toda a primeira parte, parecia erguido pedra sobre pedra (isto é, jogador sobre jogador).

O que aconteceu, então, para isso mudar? Não, não foi o Benfica “entra bem” na segunda parte como diria o óbvio. Foi, numa visão táctica global, o efeito deflagrado com danos colaterais, da saída de Hurtado.

Ao perder o seu enganche temporizador-condutor entre meio-campo e ataque, Pedro Martins cometeu o maior “pecado táctico” que um treinador pode fazer à sua equipa quando esta está totalmente equilibrada e tem o jogo como quer: mexer no espaço/posições á frente da defesa (o espaço do pivot, ou do duplo-pivot, seja este um duplo-6 ou um 6+8 com o 8 mais de cobertura como era o caso com Rafael Miranda e Zungu).

Mexer nesta posição é como fazer uma "operação de coração aberto" à equipa. E pode correr mal. Como correu. Sem Hurtado, adiantou Zungu para médio pressionante e meteu Celis a 8. Num ápice perdeu o controlo do jogo nessa posição chave, o espaço de aparecimento de Jonas (que nem se notara em campo na primeira parte) e desequilibrou toda a equipa.

A partir desse “coração partido”, Jonas encontrou espaço porque a cobertura nessa zona central já não era a mesma (é incrível como Celis calcula mal a saída –dar um/dois passos em frente- na pressão/encurtamento sobre o adversário e leva com a bola na costas). Mais subido, Zungu viu-se num lugar taticamente estranho como, afinal, toda a equipa.

E, assim o Vitória perdeu o jogo frente ao “programada de computador” táctico-imutável de Rui Vitória que, após uma primeira parte cinzenta não mexeu para “entrar melhor” na segunda (tirando passar a correr mais depressa, o que só por si não melhora uma equipa). Os dois golos (e outros podiam ter aparecido) surgiram tão naturalmente como friamente para um Vitória que se auto-desequilibrara frente a um Benfica que, como toda a época, é uma esfinge táctica que avança-recua sem sombra de tentação de pecado.

No fim, Pedro Martins, passou para uma mitigada defesa a “3” que só teve o efeito mais negativo de colocar o seu jogador mais perigoso, Rafinha (vejam como ele, num drible na área, “partiu” Nelson Semedo no lance que precede o canto/golo) a jogar como falso lateral tão longe, a “quilómetros” metros da baliza. Não faz sentido.

E assim se escreveu a decisão de uma Final. Tão simples tacticamente de desmontar como o subtil chapéu de Jiménez.