De Mazinho a Thiago: Os entusiastas do pensamento

16 de Outubro de 2020


Como trabalhar o nosso “estado primitivo” até o tornar numa potência. 

Era inicio de 1999 e um catedrático dos relvados e da vida, jogava com a autoridade patriarcal em Vigo, no Celta. Revejo uma entrevista desse tempo e, a certo ponto, perguntam-lhe:

  • “É muito raro que o Mazinho cometa erros nos jogos e o mais incrível é que quase nunca nada do que faz em campo parece especialmente difícil. Como é possível isso?”
  • “É preciso que se fixem num aspecto para o entender: Eu estou onde querem que eu esteja. Onde imaginam se dever estar e ser preciso o Mazinho, aí está ele, aí aparece o Mazinho!”, responde.

Por esse tempo, um garoto começava a dar os imberbes primeiros pontapés na bola. Seu nome, Thiago, que nascera quando Mazinho jogava em Itália, no inicio da época 91/92, e tratava da transferência do Lecce para a Fiorentina.

Na altura desta entrevista, Mazinho já falava, aos 32 anos, com a aura de campeão do mundo, no Mundial 94, onde encheu o campo como lateral, transportando para o “escrete” as grandes exibições que fizera no Palmeiras de Wanderley Luxemburgo, equipa inesquecível do futebol brasileiro dos anos 90.

Passara então, com o tempo, a jogar mais como médio-centro, organizador de jogo e polivalente que também podia jogar pela ala. Na verdade, em rigor, nesse tempo Mazinho jogava onde queria nessa bela equipa do Celta que entrara na Taça UEFA.

Estará nessa genética, a hereditariedade do talento (e neste caso, do poder cerebral de jogo) a origem do que é hoje Thiago Alcântara a jogar futebol? Há quem acredite que sim.

Eu diria que alguma coisa terá de ter. Se teve o lado mais negro das lesões crónicas de ligamentos (que tal como ao seu pai, o retirou, pela reincidência de problemas graves desse tipo, tanto tempo dos relvados, igual a que seu irmão mais novo, Rafinha) também terá, acredito, o lado mais iluminado do saber estar onde o jogo lhe exige e a sua equipa precisa, como se jogasse com uma bússola na mão, sabendo sempre para (e por onde) ela deve jogar (ou, no conceito dominante do futebol moderno, “sair a jogar”).

Mazinho cresceu num tempo em que o futebol brasileiro mudava a cara do seu estilo. O samba tecnicista dava lugar ao chamado modelo-Dunga, mais europeizado. Como ganhou, isso marcou uma viragem que (até hoje, diria) mudou os conceitos do futebol-base canarinho e visão mais táctica do jogador brasileiro, essencialmente aquele que manda no meio-campo. Os sucedâneos da espécie perpetuam-se.

Mazinho, no entanto, tal como o código genético de Thiago Alcântara, não seguiu essa doutrina sem pensar. Pelo contrário, continuou a perceber como esse triunfo do músculo (táctico) era mais produto da desconfiança sobre o pensamento (tecnicista) e juntou os dois conceitos nele. Nesta perspectiva, o filho Thiago é um upgrade dessa mescla estilística, tendo já crescido em Espanha, nas escolinhas de passe e toque (nos sítios certos) do Barcelona.

Depois disto, não me digam que o bom futebol não vem mesmo desde o berço. Neste caso, no lado mental, até da barriga da mãe, Valeria Alcântara, uma famosa ex-campeão brasileira de voleibol.

Nesse debate entre tempos “dos Zicos aos Dungas”, perguntavam-lhe, também, se iam terminar os jogadores anárquicos. “Não, cada um tem o valor que se lhe dá pelo que... faz, mas sem esquecer que no jogo é tão importante criar como ajudar”. Este era o futebol segundo Mazinho. Diziam-lhe, então, que era lento: “Não me importa. Não se pode ter tudo nesta vida. Se eu fosse rápido, seria quase perfeito. Podia jogar no ataque e marcaria mais golos. Mas não é assim. Conformo-me em ser o que sou”.

Em síntese, como moral da história, percebemos como a chave da baú do tesouro do talento está em saber trabalhar o nosso “estado primitivo” até o tornar na potencia que somos, sem queremos ser alguém diferente. Uma autodescoberta que, muitas vezes, necessita ser guiada. Para isso estão os treinadores, desde o futebol-base. E, no caso de Mazinho a Thiago, o sangue e o cérebro. Dois entusiastas do pensamento.