De Moutinho a Jardel: Notas da Liga 2006/07

08 de Fevereiro de 2007

De Moutinho a Jardel Notas da Liga 2006 07

SOBRE A POSIÇÃO DE MOUTINHO: Pode ser um Pirlo «português»?

A lentidão do Sporting no inicio de construção coloca a questão: pode Moutinho jogar como pivot-defensivo? Seria uma transformação parecida com a que fez, em Itália, um jogador de estilo semelhante: Pirlo, de 10 a regista recuado. Para essa metamorfose, o onze sofreu, porém, uma alteração nessa zona, para compensar a menor agressividade do jogador no pressing e recuperação. Assim, a seu lado, surgiram, em 4x3x1x2, dois jogadores mais de combate. Moutinho tem cultura táctica de passe e posse para a posição, mas para o fazer num 4x4x2 em losango, era necessário que os médios laterais soubessem, sem bola, fechar a defender, como se fossem essas as suas posições naturais. Isto é, têm de ser, na essência, médios que dominem o momento defensivo, ficando Moutinho menos preso a uma tarefa para a qual não tem vocação nem agressividade, e liberto para tarefas de criação. Portanto, Moutinho até pode ser um «Pirlo português», mas, neste momento, o Sporting não tem jogadores para suportar essa transformação táctica.

COMO MARCAR NOS CANTOS: A questão do segundo poste

De Moutinho a Jardel Notas da Liga 2006 07A defender, nos cantos, muitas equipas deixaram de colocar dois jogadores nos postes. Tal deriva sobretudo da marcação à zona. Isto é, para ter superioridade numérica na área, prescinde-se do homem no segundo poste. É discutível. Há dias, um treinador que dizia preferir marcar à zona, quando lhe perguntei se também o fazia nas bolas paradas, disse logo que “não, não, aí já tem de se marcar ao homem”. Ou seja, como a zona é a forma de marcar das equipas inteligentes (entenda-se inteligência a ocupar os espaços) estas disparidade espelhava desconfiança em relação à sua equipa fazer a zona num espaço e momento onde a mais pequena falha pode dar golo. Isto é: não a considerava suficientemente inteligente para marcar à zona nas bolas paradas. Por isso, cada um procura o seu homem. É a inteligência de ser realista. O que não percebo é que, mesmo com inteligência para marcar à zona em momentos de alto risco, se menospreza esse espaço, junto ao segundo poste, por onde a bola tantas vezes se escapa.

JARDEL, PONTO FINAL: A vitória do «fantasma bom»

De Moutinho a Jardel Notas da Liga 2006 07Depois de uma primeira volta sofrida, Jardel abandonou o Beira-Mar. Após a esperança inicial, o seu olhar foi escurecendo com o tempo. O tempo, e as aventuras da vida, não perdoam. Ok, a equipa é fraca, não tinha cruzamentos, etc, mas em campo, Jardel, para além dos defesas, tinha de lutar com outro marcador, o fantasma do seu passado goleador. Uma luta desigual. Segue-se o Chipre. Ironia do destino, vai jogar num clube que representa uma cidade fantasma: Famagusta, hoje abandonada na zona que divide Nicosia entre a parte turca e a grega. O clube mantêm o nome, mas há anos que joga longe dela. Já passaram também alguns anos desde que o verdadeiro Jardel se esfumou. Como as ultimas imagens são, muitas vezes, as que ficam, era importante não ter de fazer muito esforço para recordar que se tratou de um dos maiores goleadores da história do nosso futebol. Só os grandes ficam nessa elite da memória. Jardel não podia continuar a correr o risco de escorregar dela.

O AVES DE NECA: A mobilidade do «carapau»

De Moutinho a Jardel Notas da Liga 2006 07Dá gosto falar de futebol com o Professor Neca. Cada reflexão tem a profundidade de uma lição de filosofia futebolística. Nas Aves, quiseram fazer-lhe uma estátua mas o professor não aceitou. Foi pena. Acho que ficaria muito bem, com a de Shankly em Liverpool, com os braços abertos.

Depois de subir três vezes o clube, luta agora pela permanência. Vive com muitas limitações, mas ninguém lhe ouve um lamento. Nas jornadas técnicas, deu uma lição táctica que foi mais uma lição de vida no futebol. A lagosta dos grandes contra o carapau dos pequenos. Há dias, disse-me, convicto, no fim de uma tarde de tertúlia: “Vamos ficar na I Divisão!”. Fazia-o não por fé, mas porque tinha uma ideia de jogo bem definida e sabia onde o reforçar. Podem chamá-lo de defensivo, mas as suas equipas sabem sempre como estar em campo. Podem não conseguir, mas saber, sabem. Falta, como disse, dar mobilidade ao carapau. Ninguém melhor para o fazer do que um peixe táctico de águas profundas como o Prof. Neca.

OS FRACOS JOGOS DA LIGA: Questão de qualidade técnica?

De Moutinho a Jardel Notas da Liga 2006 07Face aos pobres espectáculos que tem sido muitos jogos da Liga, é comum questionar-me se a razão é a falta de qualidade técnica de muitos dos seus interpretes. Tenho essa reflexão durante o Nacional-Braga. Um jogo penoso. Faltas, passes falhados, poucas oportunidades e duas equipas com medo de perder. Acabou 0-0, claro. Analiso os jogadores e embora alguns não sejam poços de técnica, a verdade é que na Choupana até estão alguns que sabem tratar a bola. Bruno, Ricardo Chaves, Alonso, Wender...

Recupero outras reflexões e tenho dificuldade em adoptar a tese da falta de qualidade técnica. Lembro, então, que há dias um treinador, de créditos firmados, me dizia que quando lhe perguntavam quais eram os seus princípios de jogo, ele respondia que costumavam ser ás 3 ou 4 da tarde. Com isso pretendia demonstrar a sua superioridade intelectual em relação aos novos tempos. Penso nisso e afasto definitivamente a ideia do deficit técnico como a razão de jogos tão tristes.

OS DESTINOS DE DOMINGOS

De Moutinho a Jardel Notas da Liga 2006 07Há várias formas de dissecar um jogo. Há várias formas de reagir a uma derrota. Há várias formas de festejar uma vitória. Há, também, várias formas de gerir uma carreira. Durante a última semana, todas estas reflexões surgiram-me nos vários momentos em que surgiu Domingos. Procuro resistir à fácil tentação de pensar que a última condicionou todas as três anteriores. Sente-se, pela forma como joga o seu Leiria ou até pela simples forma como está no banco e pensa o jogo, que tem tudo para ser um treinador para marcar o futuro. Sem operações de marketing.

A vida que passou no FC Porto é uma moldura a que hoje não consegue fugir. Nem tem, diga-se, que descolar dessa imagem. O problema reside em questões de estilo, sobretudo num tempo em que os prazos de canonização de um treinador são cada vez mais curtos. E, adaptando ao futebol uma frase de Samuel Beckett, “não existe jogo de segunda mão entre um homem e o seu destino”.

UM, DOIS, TRÊS TOQUES E… Pereirinha na primeira página

De Moutinho a Jardel Notas da Liga 2006 07Quem já foi a um treino de captação, sabe que cada miúdo joga muito pouco tempo e por vezes só toca na bola cinco ou seis vezes. É o que basta, porém, para lhe pedir que fique. Embora não tenha o rasgo para ver tanto em tão pouco tempo, lembrei-me disso ao ver outro miúdo que ainda jogando com a casca de ovo na cabeça, já enche jornais: Pereirinha. Se calhar é por estar sugestionado pela eficácia da escola do Sporting, mas quando, nos últimos 17 minutos contra o Belenenses, o vi receber a bola pela primeira vez, com 0-0, e, sem tremer, a controlou, levantou a cabeça e assumiu o jogo em posse, soltando-a depois no momento certo, vi em pouco segundos os quatro pilares táctico-técnicos que fazem um jogador: recepção-passe-marca-desmarca.

Até ao fim terá tocado na bola mais três ou quatro vezes, mas confesso que fiquei com vontade de o voltar a ver. Pelo menos a dar mais cinco toques. Há uma segunda oportunidade para tudo, menos para causar uma primeira impressão.