Deco, Moutinho, Tiago, Hugo Viana e Hugo Almeida

23 de Março de 2007

Deco, Moutinho, Tiago, Hugo Viana e Hugo Almeida

Sem Deco, Portugal perde o seu maestro. Com bola ou sem bola. Não existe substituto para um jogador destes. A entrada de Hugo Viana representa, por si só, a entrada de outra ideia de jogo. O ideal seria encontrar outro jogador para ocupar os mesmos espaços. Como será um jogador diferente as dinâmicas individuais serão necessariamente distintas. O importante será manter os mesmos princípios colectivos de jogo. Vejo-o jogar Moutinho e para encaixar no lugar de Deco, penso que precisa alterar uma coisa no seu jogo: correr menos. Saber travar e, com o passe, fazer a bola correr. Mais cérebro e menos pernas. Outra opção seria Tiago mas ao pensar nele pensa-se noutro ponto-chave do onze. Qual a melhor companhia para Petit? Pelas posições em que mais costumam jogar, seria Tiago, ficando Moutinho a 10. Se pensarmos nas características de ambos, o inverso talvez faça mais sentido. Moutinho pode ser uma espécie de Pirlo português. Tem tudo para isso. Visão de jogo, ocupação dos espaços, timing e precisão de passe,. Tiago sabe ocupar posições mais avançadas. Não é explosivo, mas faz movimentos de ruptura atrás dos avançados. Tudo equações tácticas da selecção portuguesa.

HUGO ALMEIDA: O novo «bom gigante»

Deco, Moutinho, Tiago, Hugo Viana e Hugo AlmeidaHugo Almeida foge ao protótipo atlético do nosso futebol. Talvez por isso, mais até do que pelo seu valor concreto, pode ser um ponta-de-lança tão importante no seu futuro. Este tipo de jogador, contrario aos naturais cânones morfológicos de um país futebolístico, são trunfos históricos difíceis de encontrar. Em 66, Portugal teve Torres. Alto e esguio, ele também fugia, ao típico jogador português «roda-baixa». Isso fez dele, no entanto, com um estilo desengonçado, o grande nº9 da geração dos magriços. A eterna crise de pontas-de-lança no nosso futebol, sina do futebol latino (um futebol de médios, chamaram-lhe os críticos) pode ter encontrado, na era pós-Pauleta, uma boa solução no novo gigante luso. Hugo Almeida está hoje no futebol alemão. É o melhor que lhe podia ter acontecido para o crescimento e maturação da sua carreira e estilo. No treino e no jogo. Vai lapidando movimentos e colmata a falta de uma escola de pontas-de-lança na nossa formação.

Neste processo, descobre, primeiro, como ele próprio deve lidar com a sua diferença. Depois, como a fazer valer em campo.

QUARESMA-RONALDO Mundo de fantasias

Deco, Moutinho, Tiago, Hugo Viana e Hugo AlmeidaFace a uma equipa com jogadores como Cristiano Ronaldo e Quaresma o mais natural é pensar a sua essência a partir da fantasia. É difícil, no entanto, dar bases sólidas a um colectivo partindo de fantasistas. A ordem requer mais cérebro. Algo que suporte e alimente essa magia. Portugal tem o mais difícil de encontrar no futebol actual. A fantasia com extremos. Dois factores em vias de extinção dos relvados modernos.

Com Ronaldo a fantasia surge emoldurada ainda numa capacidade atlética invulgar para um jogador tão virtuoso. Em geral, os talentos criativos costumam ser mais franzinos. Sem Figo, Portugal perdeu um jogador capaz, por si só, de unir, no seu futebol, fantasia e ordem. Neste novo ciclo, o grande desafio, com a nova dupla mágica, é, partindo desta qualidade fantasista, acrescentar a sabedoria táctica, a ordem, ao seu jogo.

Costuma ser o contrário, partir da disciplina para a fantasia. Na busca pelo percurso inverso, entra o cérebro dos pensadores e dos operários. A batuta de Deco, o combate de Petit, o relógio de Tiago, a cultura de Moutinho. A sagrada união do bom futebol.

Duelo: H.Almeida-Van Buyten

1,90 de ponta de lança contra 1, 96 de defesa central. Um choque de músculos para emergir no interior da área belga. Hugo Almeida contra Van Buyten. Dois jogadores em cujos pés a bola até parece mais pequena. Q uando estão livres, com mais espaço, nota-se mais essa inestética relação com a bola. A agilidade corporal de ambos necessita de contacto físico para viver. Para Hugo Almeida tal faz parte da essência do seu jogo. Tal como os golos. Uma meta para ser alcançada após vencer o duelo físico com o monstro da defesa belga.

Hugo Viana, o canhoto solitário

Deco, Moutinho, Tiago, Hugo Viana e Hugo AlmeidaÉ o único esquerdino da nossa selecção. Tem futebol na cabeça e lê o jogo como um bom romance. Mas gosta sempre de o fazer devagar. Uma página de cada vez. O mundo, e o futebol actual, têm, no entanto, muitas vezes outras velocidades. Acelerações que fazem a diferença. O futebol de Hugo Viana raramente acompanha essas mudanças de velocidade. Precisa sempre de um ritmo lento, por vezes excessivamente baixo, para brilhar.

O segredo poderia, então, passar pelo cínico baixar dos ritmos. Se ele próprio o conseguir fazer quando tiver a bola, salva o seu talento.

Resta saber se consegue, ao mesmo tempo, manter o do colectivo activado.