“E você? Você é feliz?…”

19 de Junho de 2011

O defeso é uma altura do ano sujeita a coisas estranhas que podem causar alucinações. Acordo de manhã com uma chamada de uma rádio para comentar a notícia (ou especulação semelhante) da hipótese de Ronaldo ir para o Manchester City, por 1, 8 milhões por mês, 450 mil euros por semana. Saio de casa e encontro-me, casualmente, com um treinador desempregado há um ano que me fala entusiasmado na possibilidade de treinar um clube que nos últimos tempos foi notícia sucessivamente por não pagar há meses. Pouco depois, ao entrar para um restaurante, encontro um jogador, boa gente, em dúvida sobre que clube ir na próxima época, hesita entre salários de 2.500/ 3.000 euros/mês... E, atenção, falo de I Liga.

Tudo isto faz parte do mesmo mundo futebolístico. Aparentemente, pelo menos. O futebol, o jogador, o treinador e outros seres vivos que nele habitam, mergulham numa época em que não é aconselhável fazer grandes reflexões sobre o que verdadeiramente a sustenta. Na mesma realidade competitiva, coexistem mundos completamente opostos. E, no início, porém, era a…bola. Simplesmente. Depois, quando ela começa a rolar já na idade adulta, é a…carreira. E a separação dos sonhos, num perturbante ensaio real da teoria dos mundos paralelos, segundo a qual o nosso universo seria apenas um entre muitos, dispostos numa vasta rede cósmica. Muitos físicos acreditam nisto, incluindo Stephen Hawking. Se tivessem como exemplo o futebol, ainda mais certeza teriam.

Quando Bielsa treinou o Velez, a sua relação com José Luís Chilavert, estrela irascível que já estava no clube quando o treinador chegou, não foi muito boa. Foi má mesmo. Mal se falavam, só o essencial para a equipa. Durante uma viagem de avião, porém, o voo sofreu muitas turbulências. Eram sustos sucessivos.

E você Você é feliz...Sentados lado a lado, as duas personagens, sem se falarem, mas ambos perturbados, com medo do que se estava a passar. Até que, num dado momento, Bielsa vira-se para o lado e pergunta: José Luís, você é feliz?. Chilavert ficou atónito a olhar para o técnico. A verdade, porém, é que a partir dessa pergunta (com P grande) ambos iniciaram uma conversa, que ficou longa, e a relação entre eles mudou para sempre. Hoje, anos passados, falam-se várias vezes. E são amigos.

Chamam a este período jornalístico do ano (e por razões que fogem à imprensa desportiva) como a silly season. Isto é, época de notícias profundamente disparatadas, fúteis e sem interesse nenhum. No plano do futebol, vendo bem esses mundos paralelos que se chocam, não será bem assim. Daria até um case study interessante.

Não sugiro que para todas estas personagens consigam falar entre si tenham de estar dentro de um avião sob a ameaça de se despenharem a qualquer momento, mas no meio de tudo, de tantas realidades paralelas no imenso universo futebolístico, tem de existir algum ponto de contacto. Talvez, para isso, tudo se resuma a uma simples pergunta: E você?... você é feliz?. Eu acho que sim, com um Ferrari e uma top-model é mais fácil.