FC PORTO, A bola e a dimensão internacional

11 de Março de 2007

A bola. É impossível pensar num jogo de futebol sem imaginar a nossa equipa com a bola nos pés. Esse deve ser também o primeiro passo de um treinador na preparação do jogo. Com isso, demonstra que, mais do que com o adversário, preocupa-se com a sua equipa. Claro que é importante jogar sem ela e controlar os espaços, mas a essência do bom futebol está em nunca recear ter a bola e sentir-se mais confortável quando ela está na nossa posse. Depois, é uma questão de apresentá-la a todos os pedacinhos de relva. Quando entraram no relvado de Stamford Bridge, os jogadores do Porto sentiram de imediato o choque da entrada noutro universo competitivo, a chamada dimensão internacional, uma galáxia muito distante da nossa curta dimensão nacional. Questão de ritmo, outra exigência física e emocional. Á medida que estes três factores crescem num jogo, crescem proporcionalmente os sintomas da insustentável leveza do nosso futebol em reagir ás suas exigências. Só existe uma forma de fugir a ela. Posse de bola. E, antes disso, querer ter a bola e não recear a sua posse. Roubá-la aos monstros adversários e «tocar, tocar…»

Enquanto o conseguiu fazer, o FC Porto domou Londres. Quando deixou de ter essa capacidade, perdeu qualquer hipótese de o fazer. Consciente deste cenário, Jesualdo apostou no 4x4x2 como melhor forma da equipa conseguir viver nessa dimensão internacional. A última impressão pode ser diferente, mas, vendo bem, em 180 minutos da eliminatória, o FC Porto só esteve em desvantagem durante onze. Esteve a ganhar em quase quarenta e empatado no resto. O problema foi essa desvantagem ter sido nos últimos onze minutos. Os que decidiram a eliminatória. Quando o Chelsea amordaçou o jogo. Não é mera obra do acaso as coisas serem assim.

FC PORTO, A bola e a dimensão internacionalEm tese, o 4x4x2, pela forma como se distribui é um sistema que pode favorecer a melhor posse e circulação de bola a meio-campo, sobretudo frente a um adversário em 4x3x3, visto ter, nesse caso, superioridade numérica no sector. No papel, foram esses os dados lançados antes do jogo. É, no entanto, um sistema muito mais exigente tacticamente do que o 4x3x3, que contempla, desde logo, uma distribuição mais equilibrada dos jogadores em campo. Em 4x4x2, exige-se maior mobilidade táctica dos médios para ocupar os espaços, fechar no meio, abrir na faixa, fazer compensações. É, também, dos mais complexos de treinar. Este FC Porto não tem meio-campo para, num cenário tão exigente como o de Stamford Bridge, jogar nesse sistema durante 90 minutos com igual intensidade e precisão de velocidade. Faltam-lhe médios de verdade, intensos, com poder táctico e físico para o fazer a este nível, roubar a bola e trocá-la, controlando o ritmo, baixando-o cinicamente. Só a técnica, por si só, nada resolve. E, sem a bola, então, é uma causa perdida.

É impossível atingir essa dimensão táctica e física com adaptações. O FC porto sentiu isso na pele em Londres. Na tal curta dimensão nacional é diferente. Aquelas exigências são menores. Ninguém receia ter a bola e o controlo da posse. Nesse caso, então, Jesualdo pode ensaiar essa segunda opção táctica, tal como Fernando Santos e Paulo Bento o fazem, preferencialmente, no Benfica e Sporting. Todos, porém, apenas n nossa curta realidade interna. É, no fundo, a questão da dimensão internacional dos sistemas e seus intépretes.