A doutrina “barraquera” que esquece a bola

24 de Janeiro de 2021




Por dentro dos segredos da ideologia “resultadista” de Cervera que triunfa em Cádiz.

Ponto um, para tentar desfazer um mito: Ter grande percentagem de posse de bola não significa diretamente que estamos perante uma “equipa de posse”. O debate é, muitas vezes, uma falsa questão porque um dos momentos mais importantes para expressar essa sua essência está exatamente no seu comportamento (de “agressividade táctica”) quando... não a tem, para a recuperar rapidamente.
Esta era, aliás, a base da referencia máxima desse estilo (o Barça de Guardiola) na forma como, em pressing alto colectivo, recuperava rapidamente a bola para a voltar a ter e a tratar em passes a toda a largura do campo até detectar o espaço por onde entrar através da superior expressão da posse que é a qualidade do... passe.

O debate ressurge esta época através de um treinador que é visto como “anticristo futebolístico” da doutrina da pose: Álvaro Cervera, treinador do Cádiz (equipa que trouxe da II B até á I Liga). Ganhou ao Real Madrid e Barcelona contrariando os ditames da posse na ideologia e nas estatísticas do jogo, que contra o Barcelona (em que venceu 2-1) foi de 18% com três remates em todo o jogo. Quando no final explicou que isso resultava de estratégia “o Barça necessita da bola para ganhar, nos não” estava a simplificar a questão. Cervera também necessita da posse mas durante... menos tempo (até porque não tem capacidade técnico-táctica para a ter nestes jogos) e, no curto espaço de tempo que a tem, usá-la de forma diferente. Em vez do controlo-passe jogar antes em bolas longas e velocidade (busca da profundidade rápida). Ou seja, jogar de acordo com as suas potencialidades e nível dos jogadores. É deles que depende a aplicação das ideias porque “a posse não é uma coisa má, só que a nós só nos traz problemas porque sou contra equipas que a impõem sabendo que não a podem levar a cabo”.
O “sair a jogar” desde trás na primeira fase de construção é impensável para Cervera: “temos centrais é para que sejam contundentes a defender, que tirem bem de cabeça, e não contrato o guarda-redes por jogar bem com os pés. Erros nessa zona atrás, custam golos!”

Fez uma careira desde baixo, em doze clubes, mas o que torna hoje mais estranho este seu conceito é estar a aplicá-lo num clube que, historicamente, tem fama de futebol vistoso e de técnica. Chegou em 2016 e subiu-o da II B mas mesmo quando estava II Liga e, ao contrário de agora na La Liga, era a equipa grande que dominava jogos. Quando chegou tentou seguir esse legado mas os maus resultados do inicio levaram-no (após empara com o Jumilla!) a questionar tudo e decidir resgatar a sua ideia assumidamente “resultadista”. Reuniu os jogadores e disse que a parir daquele momento “as coisas vão ser mito mais simples e diretos”. Assim foi. E como ganhou, o argumento demolidor dos resultados deu-lhe razão implacável. “A ordem foi o que me trouxe até aqui e será a ordem que me irá despedir”. No jogo quer é evitar que lhe metam centros para a área e bolas paradas perigosas. Contra o Real Madrid só teve a bola em 25% do tempo e só fez cinco faltas (e ganhou)! Astuto, explorou logo essa vitória para dizer que tratar bem a bola não garante nada.

Cervera não abdica desta ideia. Ou melhor, estas “diferentes ideias” para diferentes equipas (e jogos). Define-se mesmo como “barraquero” (temo que define treinador que defende meter equipa fechada atrás) porque o que mais gosta no futebol é defender bem. “É o que posso ensinar a uma equipa. A atacar com uma bom controlo, imaginação, fintas, não”.
Apesar de todos estes dados e afirmações, recusa ser um treinador de antijogo ou ideologicamente “gelatinoso”. Prefere ser um estratega que se adapta às características dos jogadores que tem. “O Cádiz faz poucas coisas, mas as que faz, faz bem”.
Que dizer de tudo isto? Fico deprimido. O desenvolvimento físico do futebol e o decréscimo do nível da técnica conduziu-nos até este estado de coisas. Tão desolador como natural.