Bielsa:  Suficientemente louco para viver   

07 de Novembro de 2020




A evolução do futebol vai pela mão da evolução dos treinadores. Olhem Bielsa, pensamento e jogo.

 Mais do que um treinador, tornou-se uma personagem de culto no mundo do futebol.  A forma como as suas equipas jogam (e reagem aos jogos) são, também, ensinamentos de como viver,  o que é, afinal, a melhor forma de construir um estilo de... jogar.

A sua chegada a Inglaterra para treinar o Leeds foi, desde logo, um impacto cultural.  Do Championship à Premiere League, permanece o mesmo. Passos intermináveis dum lado para o outro na área técnica do banco, paragem para se sentar na berma do relvado em cima duma geladeira e voltar para o balneário com o olhar preso no relvado, pensando, óculos na ponta do nariz, para, por fim, surgir na conferencia de imprensa. Foi quando, num jogo que o Leeds ganhou 4-3 (ao Fulham), sofrendo na parte final com o adversário quase empatando, lhe perguntaram se,  após chegar a 4-1, não devia ter recuado.

Professoral, respondeu na sua voz pausada: “Os resultado não se seguram cedendo a bola e defendendo perto da nossa baliza, mas sim continuando a fazer o que nos permitiu conseguir a vantagem, que é jogar no campo adversário e atacar . É um erro pensar que os resultados se conservam fazendo o contrário daquilo que antes fizemos para o obter”.  Claro que esta frase/reflexão provocará reações contrárias (doutros treinadores até) mas nela está, lapidar,  como para Bielsa, a nível das ideias, é inegociável alguém atraiçoar-se a si próprio. Ao longo dos tempos, o culto do “Bielsismo”, corrente de pensamento de futebolístico que na Argentina terminou com o debate Menotti-Billardo (românticos versus pragmáticos) tem motivado várias obras em torno da sua personagem. De todas, uma chamada “Lo Suficientemente Loco”, titulo inspirado num conto de Charles Bukovski, genial poeta, romancista e ensaísta (tudo, afinal, no desafio á vida).

Bielsa não negoceia ideias, mesmo aquelas que, pelo moldura quixotesca, muitos desconfiem: “ Um homem com ideias novas é um louco até que elas triunfem”. Um treinador também: “Prefiro a transpiração inspirada à inspiração momentânea”. Diz isto pensando em como viver no meio do futebol e numa forma de jogar, onde “prefiro sempre o talento à canela, a ação do esforço à sobre-atuação do sacrifício”.

Respeita os jogadores pelo que são na génese: “Os dois maiores pecados que um treinador pode cometer é querer só fazer andar jogadores que sabem voar, e pretender que voem aqueles que só podem andar”. A base para os potenciar? “Identificar uma qualidade e não parar até a melhorar”.

Estilos? “Pretendo que os meus jogadores, no ataque, se europeizem para desmarcar-se e se sul-americanizem para fintar”. Modelo de jogo? “Uma equipa é, antes de tudo, o respeito por quatro ou cinco ideias básicas que devem servir para a criar. Depois, temos de procurar a coincidência colectiva dessa ideologia e, a seguir, trabalhar para que os jogadores incorporem essa ideias. Mas, atenção, há que simplificar bem o que queres transmitir. Um jogador, no máximo, admite cinco mensagens para o jogo”.

Craques: “Uma coisa é a técnica, outra é o talento. Meter a bola onde se quer, requer só técnica, mas ter a visão para o fazer no momento certo, com a velocidade e os efeitos necessários, precisa da chama do talento”.

 A ditadura do “resultadismo” ataca, claro, Bielsa por nunca ter logrado grandes triunfos mas, saindo desse lado frio do ganhar ou perder, poucos conseguem debater a essência do seu pensamentos sobre o jogo. De resto, “El Loco” nunca entrou nesse debate: “Quando somos tão perfeccionistas, vamos perdendo o nosso lado humano. Pode-se ganhar com um estilo ou com outro antagónico, mas nunca com algum em que não se acredita”.

São muitos os clubes que deixa, em conflito, após algum tempo. A razão estará noutra lição de vida que repete: “quando os sentimentos se deterioram ou transformam, não existe milagre que os possa restaurar na sua qualidade inicial.

Como entender e fazer entender o jogo a Ortega?

 São muitos os jogadores com que Bielsa acumula histórias. Um deles, Ortega, que treinou quando esteve na seleção da Argentina (maldito Mundial 2002 onde caiu na primeira fase após chegar elogiado por todos pelo belo futebol praticado). Lembrei-me de Ortega porque num treino em que estava parado só a olhar para ele, perguntaram-lhe o que passava. Sem parar de o fixar, disse “estou a pensar como lhe fazer entender em cinco minutos um conceito futebolístico que demora cinco horas a explicar”.

Nas conferências após os jogos, mesmo nas derrotas mais duras, sabe refletir e respeitar. Um dia quando lhe perguntaram, após perder, se ter substituído Ortega significava que não estava satisfeito com ele, respondeu que não, que tinha sido problema da equipa, pretendia outras coisas, etc. A conferencia seguiu e, de repente, a meio de outra resposta sobre algo muito diferente, parou e disse: “Quero fazer uma ressalva sobre uma pergunta anterior. Não foi um acerto ter tirado o Ortega. Não por comparação com o que deu quem entrou, mas porque continuamos a sentir necessidade dum jogador como ele ou alguém com as suas características. Não o devia ter feito. Quando me dei conta do erro, tentei mudar mas já não estava lá”. Num tempo em que os treinadores rejeitam a autocritica, cultivando respostas egocêntricas, este gesto de Bielsa silenciou a sala.

Podia falar em muitos jogadores a propósito de Bielsa mas recordei-me de um, algo banal, porque numa das primeiras palestras como treinador do Velez Sarsfield, no balneário, Bielsa disse solenemente: “Muchachos, sabem o que mais me impressionou neste clube até agora?”. Todo olharam. “O seu carro Husaín, é bárbaro!” . Todos se riram, inclusive esse avançado que furava bem por entre defesas mas que nunca chegaria muito longe. A partir desse dia, jogou como nunca, foi convocado até para a seleção mas... nunca se estreou.