O “caminho das pedras” de Fernando Diniz 

03 de Novembro de 2020




O treinador que, no São Paulo, está a provocar o maior debate de ideias dentro do futebol brasileiro.

Ele está a provocar o maior debate de ideias sobre o jogo (conceitos e estilos) desde há muitos anos dentro do futebol brasileiro. Fenando Diniz, 46 anos, hoje treinador do São Paulo. Adorado ou odiado, ele marca uma diferença clara na forma do treinador brasileiro pensar o jogo mesmo antes de qualquer debate táctico, embora nesse ponto a sua devoção pelo “sair a jogar” e pela “posse e jogo posicional” suscite as mais acesas divergências. No fim do mesmo jogo, é fácil ser tão elogiado como criticado, desde os seus tempos no Audax (que o revelou para a elite no Paulistão 2016),.

O chamado “Dinizismo” tem muito das ideias de Guardiola mas criou uma identidade própria que resulta, de inicio, da sua sua formação em psicologia, o curso que tirou após terminar a sua carreira de futebolista.  Dessa forma consegue entrar melhor na cabeça dos jogadores e entender o “domínio do humano” no jogo.

“Você precisa estimular a criatividade do jogador, ousado, vertical e com bom drible. Essa é a cultura do nosso povo. Agora existe preferência para se jogar de forma mais conservadora e pragmática que está fazendo o nosso futebol andar para trás”.

Depois, sim, entra a parte táctica, onde todos jogam com a bola. Uma filosofia colectiva de jogo que encontra resistências: “Fazer entender o jogador com grande qualidade técnica que o colectivo ajuda a sua criatividade e não o contrário não é fácil. Ele precisa ser colectivo para entrar no jogo de forma relevante. Só fazendo parte do todo ele terá mais espaço e ter situações de um-para um. Para isso é preciso ter articulação, movimentos pré-estabelecidos”

Isto é fundamental até para o guarda-redes na circulação da primeira fase de construção jogando com os pés, como um jogador de campo normal, ao ponto de nos treinos, ele treinar por vezes como... defesa-central, para potenciar esse seu jogo com os pés, a nível de técnica de passe.

As suas equipas consagram o toque de bola como uma referência (muitos criticam quando não cede em segurar um resultado dando um “chutão” para a frente, mesmo perante a pressão alta adversária, e no fim acaba perdendo. As trocas posicionais, com base no “jogo posicional” criando sucessivas linhas de passe, é a base da sua filosofia de posse de bola: “você tem de criar espaços, enfrentando linhas muto baixas, e assim você acaba se expondo mais. No Brasil isso é ir contra a norma”.

Para isso ser eficaz, a intensidade de reação para a recuperação pós-perda da bola é decisiva. Pelo contrário, quem joga em contra-ataque não tem que estimular esse comportamento, porque joga sempre na expectativa do erro e prefere “não expor tanto o time”.

Ter o seu conceito de jogo não implica, porém, não olhar outros estilos. Pelo contrario: “É importante ver outras formas, de defender também. É muito interessante o que Simeone faz no At. Madrid. Foi competitivo com menos armas de equipas mais poderosas. Não quero defender como ele, mas é importante observar”

O seu atual São Paulo tem o perfume de futebol no passe. Tanto quando ganha e se reconhece a sua qualidade, como quando perde e pedem o seu despedimento.

E, por fim, a pergunta clássica, sobre  que é “jogar bem”? “É ser competitivo produzir coisa positivas em todo o processo que antecede o jogo em si. Sentir prazer e dar prazer para quem joga e quem assiste. Construir um futebol colectivamente.  Não adianta colocar um monte de talentos á solta para eles resolverem. É preciso ter posse e terminar as jogadas com eficácia. Construir muitas conexões com os jogadores. E a parte humana entra de maneira sistemática nisso. Não é só o modelo de jogo e a táctica. Tudo precisa de ser construído de forma agregada. Não é só o resultado, as pessoas têm de gostar de ver o jogo”.

Como olhar para o velho debate “Académicos vs Boleiros”?

 

Vendo a perturbação que a forma de pensar e estar que Diniz provoca no Brasil (e como é atacado sem sustentação de argumentos, apenas por ganhar ou perder) ressurge também o debate “velho vs novo” ou “académico vs boleiro” (o segundo termo aplicado a quem viveu sempre o futebol na prática, contra os que chegam de fora pela teoria).

Diniz, que é a junção das duas faces (foi jogador de bom nível e é também um académico no sentido do pensamento teórico do jogo) responde sem criar divisões: “Eu acredito na vocação. Tem gente que nunca jogou e tem sensibilidade para ser treinador porque consegue ter uma percepção diferente. Nunca tive esses preconceitos. O que me interessa é o que é apresentado dentro de campo”. Chamam-no então de romântico, teórico e de complicar a linguagem do futebol mas ele desmistifica tudo isso através de como combate a “cristalização de métodos” que faz o treinador brasileiro desconfiar de tudo que vem de fora (sejam estrangeiros, sejam novas ideias que furem a velha análise simplista-individual do jogo).

Neste ponto, ele está apenas a expor o complexo/receio do futebol brasileiro em relação ao pensamento exterior. Algo que, com o impacto diferenciador provocado por treinadores como Jesus, Sampaoli, Coudet ou Doménec, está provado ser dos maiores entraves ao seu avanço (treino, jogo, pensamentos e métodos).