O que pensará hoje Quique Setién?

18 de Novembro de 2020




Sou um amante do bom futebol á moda antiga, daqueles que, com o “coração apertado”, mandam flores ás equipas que perdem um jogo mas pelas quais me apaixonei no seu decorrer. Claro que (como todos) também quero ganhar mas sei ver como isso não é a coisa mais importante no futebol (e na vida). Muito menos a única. Ganhar ou perder é, por isso, outra forma de falar do jogo e das equipas, embora antes de tudo coloque sempre como primeira premissa que para um equipa estar de acordo com o que quero dela tem de ser competitiva. A arte da conquista e da sedução. Nem todas, porém, poderão ser “equipas- D. Juan” nessa arte de seduzir, mas sempre que puderem têm o dever de manter encantando quem assiste ao jogo. De outra forma, nunca me apaixonarei por elas. Apenas as irei admirar racionalmente.

Talvez por causa desta forma de ser, tenho várias vezes pensado: Como estará Quique Setién? Tento imaginar como andará a sua cabeça e pensamentos depois de sair de Barcelona (onde chegara para treinar Messi, o auge dos seus sonhos de futebol) esmagado por uma derrota de 2-8 contra o Bayern Munique. O seu lema foi sempre o de seguir o seu ideal de jogo, respeitador da técnica do jogador, da bola e do passe. A frase seu seu lema de vida é lapidar: “Sei que provavelmente os que pensam de forma diferente têm razão, mas, se me permitem, deixem-me errar com as minhas ideias!”

Foi neste cenário que o redescobri numa conversa de futebol (no “El País”) com Don Vicente Del Bosque, catedrático treinador campeão do mundo aposentado

 

Vive estes dias, desde a avalanche bávara de Lisboa, na sua quinta em Liencres (Cantábria), no mesmo local onde, olhando no pasto as suas vacas, ficou famoso ao receber o telefonema para ir trainar o Braça. Voltou ao local rural onde foi (é) feliz. Diz que já fez o “luto” dos 8-2 e do despedimento.

Leio as palavras de Setién e penso que a necessidade/obrigatoriedade de vencer permanentemente terá, nesta fase de passagem geracional, traído a melhor forma de gerir este momento dentro do Barcelona mantendo o seu estilo de jogo. De repente, tudo foi colocado em causa. Não faz sentido. “Para os jogadores e toda a gente que os rodeia, o único importante é ganhar e o resto não importa. A realidade que eles vivem não é mesma que vivem os outros”

Muito se falou da sua relação com Messi: “Creio que é o melhor jogador de todos os tempos mas há outra faceta que não é a de jogador que tens de gerir. Muito mais. Algo comum a muitos desportistas, como vês com Michael Jordan no documentário “Last Dance”. Então, vês coisas que não esperas. Messi não fala muito. É muito reservado mas faz-te ver as coisas como ele quer. Olhar, olha muito. Agora, depois de sair, sei que devia ter tomado ouras decisões, mas antes de mim estava o clube”. Todos os treinadores que passam pelo Barcelona têm de saber viver com isso. Como disse Tata Martino logo no dia que chegou. “Já sei que se ligas ao presidente me podes despedir a qualquer momento!”

Falando do balneário, esse “local privado sagrado” dos jogadores, onde se fazem e desafazem equipas e treinadores, reforça a ideia que, na sua composição do seu ecossistema cruzado, todos são iguais: “Nos meus 40 anos dentro dum balneário, primeiro como jogador e depois como treinador, cheguei á conclusão que tens 16/17 rapazes totalmente comprometidos, quatro ou cinco que não têm entusiasmo, que treinam mas que se deixam levar, se as coisas correm bem, somam, mas se não, ficam parados. Depois, tens um ou dois que são complicados e retorcidos. Tive-os como colegas e como treinador. Se um deles não joga e te pede explicações, tens que ser sincero com ele.”.

Diz-se que o tempo cura tudo. Nunca acreditei nessa frase feita. O tempo apenas tende a apagar, a turvar ou desvanecer, as sensações então sentidas... à flor da pele. As feridas curam-se. As cicatrizes são eternas.

 

Deve um treinador explicar a um jogador porque ele não joga?  

Durante a conversa entre Quique Setién e Del Bosque surgiu a questão de se o treinador deve explicar ou não a um jogador em particular a decisão dele não jogar. Setién defende que sim: “Tive sempre a máxima de dizer a verdade”, mas para Del Bosque as coisas nunca foram assim tão claras. Do alto dos sus 70 anos de treinador-campeão do mundo explica: “ Não creio que se tenha de lhes dar muitas justificações. Mesmo aos que veem pedir explicações. Podes, ao fazer isso, cair no erro de porque o fazes com uns e não com outros. Tem de se ter cuidado. Eu acredito que a essência de todos os balneários tem de ser igual. O treinador tem de ser justo, ser credível em tudo o que diz. Quando entra no balneário, têm todos de sentir que ele está lá”.

A gestão que Del Bosque fala é mais humana, sobretudo no balneário de um grande clube em que os egos podem crescer tanto que estouram com o teto do balneário. Penso que o que é preciso será como que encontrar esse “pacto de egos”. Isso só os grandes estudiosos do comportamento humano conseguem (mais do que grandes treinadores). Por isso, Del Bosque, sem falar muito publicamente e com uma imagem para fora discreta, trunfou no Real Madrid e na seleção. Normalmente, o jogador está sempre mais defendido do que o treinador. Mais uma razão para que ele nunca saiba mais do que deve (no fundo, mais do que sabe o treinador).

Setién jogador

É curioso reparar (recordar) como o jogador-Quique Setién tem tantas semelhanças com o que se tornou treinador. Ou seja, o seu estilo de jogar, mesmo sem ter atingido um nível muito alto, tinha a base de como agora pensa o jogo duma equipa. Passou por Racing. At. Madrid, Logroñes e destacou-se como um médio ofensivo (de inicio era nº9) que, no passar da carreira, recuou um pouco no terreno e então sim, o “treinador” começou a nascer na sua cabeça quando, com menos velocidade, conduzia a bola organizando o jogo.