Harry Kane e a transfiguração da função do ponta de lança

13 de Outubro de 2020

O futebol é um jogo simples de se entender e de se jogar. Pode ser facilmente compreendido por todos. Aí reside, em parte, a sua beleza e popularidade.

Desde tenra idade vamos sendo atraídos para este fascínio que arrasta multidões e a alegria do golo cedo nos contagia. É, pois, com naturalidade que os avançados, os intérpretes cuja principal missão é colocar a redondinha no fundo das redes, sejam desde logo o alvo preferencial das atenções. Neles residem as maiores esperanças e expectativas dos adeptos.

Imaginamo-nos na sua pele e num estádio cheio enquanto jogamos no quintal da avó, no parque ou na escola com os amigos. Vários rostos se vão sucedendo com o tempo numa imaginação fértil de criança que perdura e que vai crescendo livre e solta, correndo com uma bola nos pés, na senda dos seus heróis.

Aos avançados o perdão é facilmente concedido. É como se os deuses do futebol os amnistiassem. Por mais perdulários que estejam, um golo salvador vem sempre colorir uma partida má. Vivem assim, mais folgados, gozando de um privilégio que os coloca um pouco acima da crítica e num estado de graça potencialmente mais alargado.

Estas linhas transportam-me para o norte de Londres, para a casa do Tottenham. A equipa orientada por José Mourinho tem estado recorrentemente em ação nas últimas semanas. Para o campeonato saltam à vista dois resultados: a vitória expressiva no St. Mary’s por 2-5 perante o Southampton e a goleada histórica (1-6) imposta ao Manchester United em Old Trafford.

Harry Kane é o ponta de lança, um goleador de créditos firmados na Premier League, nos Spurs e na Seleção inglesa. As suas exibições primorosas recuando no terreno, procurando jogo fora do seu habitat da grande área, e os seus dotes de assistente mostram o quão completo é. Tem criado novas conexões e sido deliciosamente generoso, com pormenores técnicos que ficam na retina. Atua com uma clarividência transcendente revelando uma forma de estar associativa. Beneficia toda a equipa com o seu altruísmo. E mesmo assim continua de pé quente. Deixa um rasto de golos mas também assume as vestes de carteiro entregando a bola com qualidade e precisão para que outros possam também aninhar o esférico na rede destinatária.

Será o golo assim tão importante na caracterização de um papel, de uma função, e na sua concretização? As estatísticas sufocam-nos. Pequenas areias na engrenagem que transformam o jogo em pura matemática, sensaborão. O romance delineado no relvado carece, sim, de entusiasmo.

No momento presente em que não se sentem a pimenta e o sal do espetáculo, isto é, o bruaá palpitante do público em massa nas bancadas, valha-nos a ousadia de quem se atreve a fugir ao banal para fazer diferente.
Well done, Harry Kane. Thank you.

Adolfo Serrão

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