Mehdi Taremi: a obstinação anima o Sonho

08 de Março de 2021




Às vezes para nos realizarmos na vida temos que provar a nós próprios que somos capazes. Desafiando-nos. Fazendo tudo o que estiver ao nosso alcance para, um dia mais tarde, não ficarmos a pensar, macambúzios, no que poderia ter sido…

Mehdi Taremi, ponta de lança iraniano, era – é – uma estrela no seu país. Fez o seu percurso, com provas dadas. Emigrou para jogar no Qatar. É jogador de Seleção. Idolatrado e respeitado. Uma vida confortável, protagonizando o sonho de tantos… Mas não estava plenamente satisfeito. Ainda não cumprira o sonho de jogar na Europa.

Eis que aos 27 anos dá o salto ansiado, rumo ao desconhecido, acalentado pela força de uma idealização. Chegou a Portugal e ao Rio Ave. Surpreendeu e logo causou impacto pelos milhões de seguidores que tinha nas redes sociais. Futebol é paixão no Irão e no Médio Oriente. Lá, como cá, é sentido com fervor. Os vilacondenses logo beneficiaram desse abraço e dessa nova exposição. No relvado, todavia, Taremi ainda tinha muito a provar. Aos olhos de Portugal e da Europa era praticamente anónimo. E Mehdi sabia-o.

À primeira oportunidade começou logo a conquistar os adeptos. Com golos, claro. Mas Taremi representava muito mais que isso. Sentia-se, ao vê-lo, que estávamos na presença de um atleta singular. Muito inteligente. A forma como se movimentava explorando a profundidade, como que desafiando, matreiro, a linha de fora de jogo. O seu posicionamento em campo, sempre em prol da sua equipa. A sagacidade que o levava a ganhar penaltis. A sua finalização, clínica, cirúrgica, potenciada pela sua inegável qualidade técnica. Um avançado completo.

Foi chegar, ver, e vencer. No final da temporada a caravela rioavista desembarcou na Europa após a melhor pontuação de sempre no campeonato nacional. Taremi naturalmente despertou cobiça e pôde escolher o seu destino. Permaneceu no norte mas desta feita no campeão nacional em título, o FC Porto. A possibilidade de experimentar a Liga dos Campeões foi um doce aliciante.

No verão de 2020, sensivelmente um ano depois da sua chegada ao nosso país, Mehdi já era conhecido e reconhecido como uma grande contratação, digna de regozijo por parte dos adeptos portistas.

A exigência subia mas a sua motivação também. Estava onde queria. Teve o seu tempo de adaptação ao novo clube. Porém, não desanimou e foi aproveitando as crescentes oportunidades que lhe foram concedidas por Sérgio Conceição.

Hoje Mehdi Taremi é jogador-chave na manobra ofensiva azul e branca. Igual a si próprio, confirma todas as credenciais que já mostrara em Vila do Conde. Elevou o nível do seu jogo. Influente, é sinónimo de golos mas também de assistências para os seus colegas. A sua atitude abnegada, sedento por conquistas, encaixou perfeitamente na mentalidade de um clube grande, habituado a triunfar. E a forma desassombrada como comunica revela consciência, humildade e categoria.

Taremi está a viver um sonho. Joga com alegria, coisa rara de se ver ao mais alto-nível. É verdadeiramente livre. Construiu o seu destino, avançou destemido e vai desfrutando como poucos do belo jogo.

 

Adolfo Serrão

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