Memórias: Chico Gordo, o golo como forma de vida

02 de Dezembro de 2004




Quando regressou á I Divisão, em 1975, o Sporting de Braga, treinado pelo ex-magriço José Carlos, contratou um avançado centro angolano, que depois de começar a carreira no Lobito, passara pelo FC Porto e, na época anterior, jogara no pelados da II Divisão, com a camisola do Lourosa. Chegava aos principais palcos do futebol português, um dos pontas de lança com maior faro de golo da década de 70: Chico Gordo.

Nunca ganhou uma Bola de Prata. Naquele tempo, isso era quase impossível, para quem não jogava num grande, mas, mesmo assim, andou lá perto. Em 77/78 ficou em segundo, atrás de Gomes. Era um avançado que passeava na área adversária ou entre os centrais adversários de forma descontraída, cheirava o golo no ar, perseguia a bola com os olhos, esperava por ela como um predador pela presa e, depois, na hora do remate, oportunidade e espaço descobertos, era mortal. Não era um driblador, nem sequer se lhe viam grandes rasgos técnicos, a sua forma de vida dentro dos relvados só fazia sentido com uma baliza por perto.

É, ainda hoje, o melhor marcador da história do Sporting de Braga em jogos do campeonato: 59 golos, entre 75/76 a 79/80. A nível de selecção, as suas únicas internacionalizações foram no onze nacional júnior. Para quem viu com os seus golos (fantástico aquele em 78, depois de parar a bola no peito, fuzilando a seguir, sem a deixar cair no chão, o grande Fonseca, guarda redes do FC Porto campeão nacional, para a única derrota que este sofreria no campeonato (3-1) ou, outro golo, já no perto dos 90 minutos, num derby sob céu nublado, contra o Guimarães, quando, com o 0-0 a manter-se, aproveitou uma bola metida na área e, sorrateiramente, ganhando no corpo a corpo com o defesa vimaranense, deu-lhe um inteligente toque com o bico que a fez entrar mesmo no angulo inferior da baliza, de tal forma que nem se tinha percebido bem por onde a bola tinha entrada. Foi o golo da vitória e o Braga podia caminhar para conseguir, pela primeira vez na sua história, para conquistar um lugar na UEFA através do campeonato) a memória de Checo Gordo é eterna.

Aqueles são apenas dois golos. Tenho outras dezenas deles gravados na memória.

Espaço nostálgico sobre lendárias figuras do velho futebol português. Um exercício de memória cruzada entre a realidade e a forma como, no imaginário construído pelo tempo, as gostamos de recordar, sem recurso a registos ou jornais velhos.

Memórias Chico Gordo, o golo como forma de vidaNos últimos tempos, com o passar dos anos e o peso da idade a diminuir-lhe a rapidez de reflexos na área, provocando o decréscimo do seu instinto goleador, começou a desesperar os adeptos arsenalistas mais pelos golos que falhava do que marcava. Seja como for, mesmo para os falhar precisava de estar lá, com a oportunidade nos pés e Chico Gordo... estava sempre lá. Em 1980, longe dos tempos áureos, acabaria por rumar ao Setúbal, onde teve o último fôlego na I Divisão. Finda a carreira, por lá se radicou. A vida, depois, não respeitou o seu passado como goleador. Andou pelos bancos de tribunal por problemas com a droga e acabou, há poucos anos, por falecer num brutal acidente de trabalho. Na hora em que o Braga alcançou a marca de 500 vitórias no campeonato, é imperioso respeitar a sua história e, os seus verdadeiros adeptos, aqueles que sentem o clube desde o berço, recordarem um dos grandes responsáveis por essa bela marca: Chico Gordo, ponta de lança com o golo no sangue que marcou a década de 70, até hoje o melhor marcador da história do Sp. Braga em jogos do Campeonato.

Foto:

Esta é uma das equipas do Sporting de Braga, com o goleador Chico Gordo em destaque, em 1975/76, na época de regresso á I Divisão. Terminaria o Campeonato em 7º lugar. Outro jogador a destacar neste onze, o louro médio criativo e organizador Marinho, que depois rumaria ao Sporting. Os seus nomes: Em cima: Pinto (médio) Chico Gordo (avançado), Marconi (avançado), Garcia (médio) e Marques (médio): em baixo: Marinho (médio), Serra (defesa-central), Fernando (defesa-central), Walter (guarda-redes), Vilaça (lateral-esquerdo) e Mendes (lateral-direito).

77/78: Um ataque de luxo na primeira qualificação europeia pelo campeonato.

Memórias Chico Gordo, o golo como forma de vidaÉpoca 77/78. Pela primeira vez na sua história, o Sporting de Braga logrou o apuramento para as competições europeias através do campeonato, obtendo, ao mesmo tempo, a sua melhor classificação de sempre, 4º lugar, que superava o longínquo 5º posto de 53/54, 54/55 e 57/58. Foi uma equipa inesquecível. Ganhava e jogava bom futebol. Tinha defesas robustos, onde imperava o central brasileiro Ronaldo, vindo do FC Porto, e que um problema cardíaco iria obrigar a parar a carreira cedo demais, um excelente guarda redes, muito personalizado, Conhé, médios que sabiam tratar a bola e, sobretudo, um ataque que nos fazia levantar das frias bancadas de pedra sempre que arrancavam com a bola: Chico Gordo, Lito, Nelinho e Chico Faria. Um quarteto fabuloso, o melhor da história ofensiva do Braga, não duvidem. Chico Faria chegara a Braga já com o nome firmado como rápido extremo avançado do Sporting; Lito era ainda uma promessa veloz, fintava em velocidade e progressão, imparável nos últimos vinte metros e, dois anos depois, regressaria ao Sporting; Nelinho foi, na altura, uma contratação sensação pois rumara a Braga no auge da carreira depois de ter sido campeão nacional pelo Benfica onde era, como extremo-direito, uma das principais figuras. Foi para Braga com um contrato fabuloso para a época, de quase 85 contos por mês. Era rápido, inteligente nas triangulações e desdobrava as defesas com grande categoria; Na foto, em cima: Conhé; Artur, Ronaldo, Vilaça, Garcia, Fernando e Imbeloni (treinador): em baixo: Chico Faria, Pinto, Nelinho, Chico Gordo e Lito.

Revisitando a história do Sporting de Braga / TRÊS JOGADORES-CHAVE:

1º Jorge Mendonça (anos 50)

Memórias Chico Gordo, o golo como forma de vidaDizem os mais antigos, que o viram jogar, que foi o melhor jogador que passou pelo Sporting de Braga em toda a sua história. Revendo as crónicas da época e os jornais velhos, mesmos os espanhóis, não custa a acreditar. Curiosamente, rumara a Braga apenas por exigência do seu pai e anterior clube, o Sporting, que só permitia a contratação pelo Braga do seu irmão mais velho, Fernando Mendonça, se também trouxessem o miúdo que não podia ficar sozinho em Lisboa. Veio então o miúdo, juntou-se aos três irmãos, e revelou-se um jogador fantástico que, poucos anos depois, rumaria ao Atletico de Madrid. Uma transferência fabulosa para a época.

Na foto, uma equipa desse tempo: De pé: Nogueira, Calheiros, Armando, Vieira, Zé Maria e Passos, em baixo: Rafael, Ferreirinha, João Mendonça, Jorge Mendonça e Fernando Mendonça.

2ª Chico Gordo (anos 70)

Memórias Chico Gordo, o golo como forma de vidaO melhor marcador da história do Sp. Braga em jogos do Campeonato: 59 golos, de 75/76 a 79/80

 

 

 

 

 

3ª Zé Nuno Azevedo (anos 90/2000)

Memórias Chico Gordo, o golo como forma de vidaO jogador com mais jogos disputados pelo Sporting de Braga na I Divisão: 275 jogos, entre 92/93 a 2002/03. actualmente é treinador da equipa júnior. Lateral direito de raça, veloz e com um espirito lutador inesgotável.

Memórias da Bola Lusitana